S. Tomas - Comentário ao De Anima (Cap 3-4) de Aristóteles

            Ambos os textos tem como objeto de análise a alma humana, ainda que sob perspectivas diversas. Podemos notar uma relação mais direta entre os textos de Aristóteles e S. Tomás, o que é óbvio, uma vez que o santo comenta justamente a obra do filósofo. Podemos, porém notar uma certa continuidade e mesmo um certo aprofundamento realizado por Edith Stein, dado o seu diverso contexto, meios e finalidade.
No terceiro capítulo de De Anima Aristóteles continua a tratar a natureza da alma em diálogo com os filósofos precedentes. A perspectiva da análise da alma humana é o movimento, na verdade o filósofo se propõe a investigar a possibilidade ou não de movimento da alma, destacando a quais tipos de movimento se refere: deslocação, alteração, perecimento e crescimento, verificando se alguns deles se aplica a alma.
Assim, primeiramente relata as opiniões dos outros filósofos mostrando quais deles mantiveram um método para investigar a alma e posteriormente mostra de que modo diversos filósofos chegaram a diferentes opiniões sobre a alma. Aristóteles procura verificar se o movimento é caraterística da alma, e se sim, se é por essência que a alma se move ou faz mover o corpo, bem como as consequências dessa constatação, como por exemplo, no caso do movimento pertencer a alma por natureza, implica que esta ocupe um lugar, espacial.
Não concorda com a concepção de que a alma se move a si mesma por essência, bem como não está de acordo em ser a alma a mover o corpo, dadas as consequências de tais afirmações, como por exemplo o fato de que em tal caso a alma ao se mover ou mover o corpo e deslocar-se implicaria, sair e entrar novamente no corpo, porém ao sair implicaria a morte do “animal” e ao re-entrar a sua ressurreição, o que resulta a tese absurda, ao mesmo tempo nos faz pensar a profundidade de sua análise que como pano de fundo traz uma certa ideia de que a alma seja um princípio que informa ou dá a vida ao corpo. Então conclui que a alma não possui um movimento próprio por natureza, mas por acidente.
No que se refere ao método, nos fica evidente a abordagem dedutiva do filósofo, partindo da observação, contemplação da realidade, bem como o sua forma dialógica de fazer filosofia, sempre considerando a opinião dos filósofos anteriores. Podemos notar, como em suas outras obras, como Aristóteles é um modelo de filósofo como também de mestre, considerando sempre o contexto em que se movia seus discípulos.
            Nessa perspectiva segue o comentário de S. Tomás à obra de Aristóteles, afirmando que chegamos ao conhecimento do que é imanifesto através daquilo que é manifesto, dizendo serem dois os manifestos pelos quais os animados se distinguem dos inanimados, a saber, o sentir e o ser movido. Destaca que, segundo Aristóteles, os filósofos antigos se dividiam em diversas opiniões sobre como chegar ao conhecimento da alma, resumindo em dois caminhos: através do movimento e através da sensação (cognição). Assim a análise da natureza da alma segue a partir da perspectiva do movimento. Entre os filósofos que trataram a natureza da alma a partir do movimento, apresenta a opinião de Demócito, o qual dizia “ser a alma um certo fogo ou calor”, para em seguida apresentar a opinião dos pitagóricos, para os quais a alma são corpos indivisíveis e infinitos ou aquela virtude que move aqueles corpos indivisíveis e infinitos.
            Passando a comentar a opinião de Anaxágoras, que tomará a maior parte do terceiro capítulo, S. Tomás não apenas expõe sua opinião como a utiliza para contrapor àquela de Demócrito, para quem a alma e o intelecto são o mesmo. No fim do capítulo o doutor angélico diz que Aristóteles mostra em que se distinguia Anaxágoras e Demócrito, considerando a opinião de Anaxágoras e reprovando aquela opinião.
Como foi visto, Santo Tomás no terceiro capítulo trata do conhecimento da alma a partir do movimento, já no quarto o conhecimento da alma vem analisado a partir da sensação ou cognição e isso de dois modos: demonstrando em que concordam os filósofos que consideraram a alma a partir da sensação e em que divergem. Considerando a sensação todos reconhecem a alma a partir de princípios, porém para alguns os princípios são muitos e para outros um único princípio.
            A semelhança da coisa conhecida se dá no cognoscente, então a tese se desenvolve a partir da ideia de que se a alma tudo conhece é porque possui nela própria a semelhança de tudo conforme o ser natural. Contudo, para o doutor angélico, os filósofos não distinguiram o modo pelo qual uma coisa se distingue apenas no olho ou intelecto ou na própria coisa (in se ipsa). Considerando especialmente a opinião de Empédocles, a alma humana seria constituída de elementos, que são também princípios, e para ele são propriamente seis, 4 materiais (terra, água, ar e fogo) e 2 ativos-passivos (amizade e desavença).
            Em seguida detendo-se sobre os discursos de Platão, segue-se uma tentativa exaustiva de descrição sobre o processo de conhecimento da alma e afirma que o filósofo também considerava a alma a partir de princípios, dos quais seguem-se dois elementos ou princípios das coisas, o mesmo,  do qual advém os imateriais e o diverso, do qual advém os materiais, de ambos procede a alma.
A partir da análise do segundo discurso de Platão estabelece que as realidades inteligíveis são por si subsistentes e separadas sendo sempre em ato e principalmente, a ideia de que são a causa da cognição e ser das coisas sensíveis, que segundo Tomás, para Aristóteles constitui o intelecto agente. Então existe um duplo modo de abstração através do intelecto, dos particulares aos universais e matemática das coisas sensívies.
Analisando o terceiro discurso trata das potências da alma para apreensão do ente: intelecto (apreensão), ciência (1ª dualidade), opinião (1ª trindade), sensação (1ª quaternidade). Já no final do quarto capítulo afirma que existiram os filósofos que chegaram à cognição da alma a partir do movimento e da sensação simultaneamente.

            Uma semelhança significativa que nos salta aos olhos entre Aristóteles e S. Tomás de Aquino é que ambos, antes de apresentar teorias sobre quaisquer temas, sempre parte primeiro de uma pesquisa sobre o que estudou outros filósofos, buscando ser intérprete fiel, bem como analisando concordâncias e contradições em cada pensamento, para depois sim, apresentar uma visão que lhes sejam próprias.

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