Porfirio - Carta a Marcela

(Resumo)

Porfírio foi um importante discípulo de Plotino, de quem foi o responsável por escrever uma biografia e organizar seus escritos (Enéadas). Pode ser considerado neo-platônico, dividia a filosofia em ética, física e metafísica, que seria uma espécie de saber contemplativo concernente aos mistérios a ao cume do saber. Para ele, o escopo da filosofia é a união com Deus, o que dá ao seu pensamento um certo cunho religioso, como se nota na Carta a Marcela. Na leitura dessa Obra se pode notar que para ele a filosofia apresenta um caráter minoritário e de certa forma elitista. Vale lembrar ainda que é um defensor do paganismo e forte crítico do cristianismo, do qual chegou a escrever uma obra contra. O motivo principal de sua crítica pode ser compreendido através da sua concepção filosófica de Deus, de tal forma superior, que não poderia se encarnar e mesmo se revelar ao homem.
A carta a Marcela tem caráter sapiencial é de consolação à sua esposa, que está sujeita à sua ausência e ao mesmo tempo um convite à sua “ascese religioso-filosófica”, expõe ainda seu pensamento ético. Deixa claro também que a filosofia exige não somente o empenho da razão, como também o exercício da fé, do conhecimento, da esperança e do amor, aqui não entendido em sentido cristão e sim platônico, amor que eros e não ágape.1
Enquanto os pensadores cristãos da época, recorriam aos filósofos clássicos para demonstrar a reacionalidade das verdades reveladas, os filósofos pagãos, também Porfírio, recorriam a eles e a uma certa autoridade da fé para afirmar suas convicções racionais. Na Obra fica ainda claro um certo apreço à piedade greco-romana, “este é o maior fruto da piedade: honrar a divindade, segundo o costumes dos pais.” 2
A sua metafísica fica evidente na obra em diversos trechos e é determinante para suas convicções filosóficas, entre elas a de que Deus não poderia se encarnar, pois no cume do ser está o UNO, que é absolutamente incorpóreo, está presente em todas as partes, sem se confundir com nenhuma. Abaixo do Uno está a “inteligência”, que procede do Uno e é também incorpórea simples e indivisível, nela se contém o mundo inteligível das ideias. Da “inteligência” procede a alma do mundo, que é já, composta e móvel e apresenta duas partes, uma primeira que se identifica com o demiurgo de Platão e uma outra inferior, na qual estão todas as almas particulares que procedem dela, sem dividi-la e nem destruir sua unidade e debaixo das almas estão a matéria e os corpos. Vale ressalvar que Porfírio introduz algumas transformações em relação à metafísica de Plotino, não se limitando a simplesmente a repropor a sua doutrina.
Assim, a consequência natural é uma visão demasiado pessimista do corpo e de suas realidades, justificando assim o tema fundamental da sua moral, a salvação da alma que se dá mediante o asceticismo, a purificação e ao conhecimento de Deus. Logo, a alma deve libertar-se do corpo e de todas as suas paixões, a fim de retornar ao seu primeiro princípio, suprimir as paixões, seria uma espécie de morte filosófica ainda mais eficaz que o suicídio logrado por Sêneca, por exemplo.
O prontuário moral apresentado por Porfírio nessa obra é elaborado com base na filosofia pitagórica extraída de Platão, que sintetiza aquilo que ele considerava melhor das tradições greco-romana e parece pretender oferecer um estilo de vida sapiencial e religioso diverso ao cristianismo, que se difundia tanto.
A Obra apesar de não apresentar uma doutrina rigorosa sobre Deus e sobre o homem, traz certamente a fusão de dois elementos, a piedade tradicional greco-romana, com a teologia metafísica de Porfírio, pois introduz nessa piedade e culto um novo fundamento, que advém da sua especulação filosófica neo-platônica. Assim, a alma das práticas religiosas é a filosofia e “somente o sábio é sacerdote, somente ele é querido por Deus e somente ele sabe rezar.3” Uma piedade sem filosofia seria vazia e mesmo nociva.
A queda da alma no devir vem recordada por Porfírio à sua esposa e toda a ascese que propõe consiste de certa forma em recuperar a união com o Uno, o meio para tal consiste em purificar-se, libertar-se das paixões e sofrer4, tal esforço será premiado com a visão de Deus e com a união com Ele já nesta vida, pois apesar da queda no devir, alma conserva sempre um certa presença da divindade.5
A ascese moral deverá também ser acompanhada de uma piedade que se manifeste em orações e atos de culto dirigidos a Deus, coerentes com a vida, pois o culto meramente externo, quando desligado da ascese carece de valor e não produz aquilo que se propõe, a união com Deus.6

Embora se possa fazer muitas oposições racionais ao pensamento anti-cristão de Porfírio, deve-se reconhecer sua eloquência literária e estilo atraente de leitura e algumas de suas afirmações, consideradas em si mesmas podem trazer algumas luzes, do ponto de vista da espiritualidade, ao cristianismo.

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1 Cfr. 24, 5-11.
2 18, 1.
3 16, 12-17,1
4 Cfr. 9, 1-9; 7, 9-10; 14; 34, 2-4
5 Cfr. 9 e 12
6 Cfr. 13, 5-9; 14, 7-15, 1; 16, 12; 19, 7-8; 24, 2-3


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