Platão - O Sofista II

(Resumo)

            Continuando nossa reflexão a cerca dessa importe obra de Platão, veremos como o autor refuta a tese Parmenidiana sobre a impossibilidade no não-ser e ainda discorreremos brevemente sobre o problema da predicação e da comunidade dos gêneros.
            Nosso ponto de partida será o debate a cerca do discurso falso em contraposição ao discurso verdadeiro. Seu objetivo é situar o gênero sofisítico num plano inferior do conhecimento, em contraste com o saber propriamente filosófico. O sofista seria um produtor de simulacros (aparências), já o filósofo um criador de discursos verdadeiros (cópias da verdade) através da dialética.
            Para sustentar sua tese, Platão, através do Estrangeiro, se vê obrigado a refutar a tese Parmendiana a cerca do não-ser, uma vez que ela poderia servir de defesa aos sofistas. Para ele o não-ser não pode ser pensado e nem dito, a partir disso o sofista não poderia ser um produtor de simulacros. No entanto, Platão apresenta a o não-ser como alteridade do ser e não necessariamente como o seu contrário, demonstrando assim a possibilidade da existência da falsidade no discurso. Portanto o discurso falso seria aquele que se refere ao “contrário” daquilo que realmente “é”, ou seja, “são os não-seres, o que a opinião falsa concebe”.
            Depois de superar as posições contrárias das doutrinas pluralistas e unitárias a cerca do ser, a tese de Heráclito sobre irredutibilidade do ser ao movimento, e a tese de Parmênides sobre o repouso, Platão afirma que o verdadeiro ser (a ideia, a forma) é, ao mesmo tempo, uno (em relação às suas cópias finitas no mundo sensível) e múltiplo (em relação à multiplicidade infinita das formas), propondo assim uma nova teoria do ser, a saber, a do ser metafísico. Notamos que toda a estrutura do pensamento de Platão está presente na obra e para uma justa compreensão do texto é necessário tê-la em mente.
            Tendo realizado o seu “parricídio”, Platão chega ao problema da predicação e da comunidade (comum-unidade) dos gêneros. Ao destacar a relação do ser com o movimento e o repouso, o autor introduz a ideia de participação (comunidade). Assim, de um lado nada pode existir sem que possua comunidade com o ser, e por outro nem todas as coisas participam umas das outras.  Por exemplo, o repouso e o movimento não podem ter comunidade entre si, uma vez que são essencialmente contrários. O ser, no entanto, se associa a ambos, pois se assim não fosse não poderiam existir, o que não é verdade.
            Bem posto tal alicerce, Platão volta a discorrer a cerca do filósofo, o que de certa forma reflete propriamente uma segunda navegação no tema. O estrangeiro atribuirá ao filósofo a arte da ciência dialética e a capacidade de distinguir os gêneros mutuamente concordes, como também os que não podem suportar-se mutuamente. Então o elege os cinco gêneros mais importantes: o ser, o movimento, o repouso, o mesmo e o outro (diverso). E daí parte para a investigação sobre quais são mutuamente concordes e quais não são.
            O estrangeiro prova o não-ser como alteridade, pois para ele quando nos referimos ao não-ser, não estamos necessariamente afirmando algo que seja contrário ao ser, mas qualquer outra coisa que nao seja propriamente o ser, “sempre que nos referimos ao não-ser, não temos em vista, como parece, o oposto do ser, porém algo diferente[1]. Negando, portanto, que a negação signifique contrariedade, mas apenas algo diferente.
            Uma vez estabelecida a existência do não-ser, resta apenas ao autor, analisar a natureza do discurso e da opinião e finalmente verificar se o não-ser pode se associar a eles.
            A ordem dada aos vocábulos é, para o Estrangeiro, o que determina o sentido do discurso, uma vez que nomes e verbos separados não formam um discurso, da combinação entre eles, no entanto, o discurso sobre algo surge. Logo, o discurso verdadeiro seria aquele que apresenta algo como realmente é, e o discurso que apresenta um outro algo como sendo o mesmo daquilo que realmente é, seria o falso.
            Quando parecia se distanciar da questão central da obra (o sofista), Platão retorna a ele definindo-o como um imitador do sábio, uma vez que, através de discursos falsos (simulacros), produz apenas ilusões.
            Analisando bem todo o texto notamos que o pensamento de Platão não é linear, e sim circular, e esta é uma característica própria de um certo racionalismo. Notamos particularmente que o contexto contemporâneo é caracterizado por isso, logo a leitura do texto se torna atraente, uma vez que nos dá instrumentos para ler com mais clareza o nosso tempo.
            Antes de Platão se falava somente do ser, e justamente a partir de Platão, e propriamente deste diálogo se coloca a questão do não ser. Isto é uma coisa fundamental, ao menos no discurso filosófico.
            Notamos também uma característica fundamental de Platão, que consiste em passar sempre de uma análise mais simples ao plano metafísico, e podemos dizer que as duas coisas vem propriamente mescladas de tal forma que de um plano se pode passar ao outro se realizamos uma leitura um pouco mais atenta. Propriamente notamos que a estrutura da sua metafísica está sempre presente tais como o conceito de participação, a realidade das Ideias, entre outros. Talvez porque este é um dos últimos diálogos do autor e representa já a maturidade do seu pensamento, tendo presente sempre como pano de fundo a metafísica de Platão.
            Consideremos ainda que o conceito que temos hoje, tomado da filosofia tomista quanto ao não-ser, não é o mesmo de Platão, para quem o não-ser de certa forma é. Absolutamente para o doutor angélico o não-ser não é. Contudo, para além de criticar ou não Platão, em minha opinião, o parricídio de Platão foi fundamental para S. Tomás chegar ao princípio de não contradição. Compreendemos isso melhor quando analisamos do ponto de vista lógico, uma vez que do ponto de vista metafísico propriamente o não-ser não é absolutamente.
Aqui a beleza do estudo que acabamos de realizar é compreender Platão em si mesmo e depois analisarmos também a crítica que lhe é feita por outros autores e assim compreendermos cada vez mais o contexto atual da filosofia contemporânea e em que momento nos encontramos



[1]  Platão, O Sofista. EbooksBrasil. Abril 2003. (Tradução Carlos Alberto Nunes). P. 44. 

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