Plotino - • Enéadas (V, 2, 1; V, 3, 13-17; V, 4, 1-2 e VI, 9)

            Plotino nasceu em Licópolis (Egito) foi o mais representativo dos filósofos néoplatônicos e pode mesmo ser considerado o fundador do neoplatonismo, discípulo de Amônio Sacas e por onze anos mestre de Porfírio. Escreveu 54 tratados, que posteriormente foram ordenados e corrigidos por Porfírio a pedido de seu mestre. Seu método consistia em conduzir seus alunos a reflexões muito abstratas, nas quais buscava repensar a doutrina dos filósofos precedentes. Individualiza os problemas metafísicos, que segundo ele, ainda não estavam resolvidos, buscando dar uma solução.
            Seu primeiro tratado surgiu somente aos 50 anos de vida, fruto dessas reflexões, o que nos permite concluir seu pensamento já maduro. O nome Enéadas surgiu a partir da classificação feita por Porfírio, que seguindo a tradição pitagórica tem-se que 54 = 6 x 9, ou seja o número da perfeição multiplicado pelo número da totalidade. Assim obteve 6 grupos temáticos, contendo 9 tratados, donde “enea”=nove).
            Tal classificação não é arbitrária, pois analisando seu conteúdo podemos notar que o critério editorial tinha o objetivo de mostrar o caminho para a Sabedoria, dando ao leitor uma formação filosófica que pretende conduzir ao Bem Absoluto, ou mesmo um itinerário espiritual de transformação da vida e cura da alma (cf. VI 9, 7-9). Notamos que influenciou profundamente o pensamento posterior, especialmente o judaico-cristão, como observamos no curso de Leitura de Obras Medievais com Mons. Clavell ao lermos Sto Agostinho, Boécio, Sto. Anselmo, Sto Tomás de Aquino entre outros.
            A Obra apresente uma Teoria, na qual Plotino divide o Universo em 3 hipóteses: o Uno, o Nous (ou mente) e a Alma. Sua concepção é sistemática, porém sujeita a muitas críticas, porque algumas vezes suas afirmações são un tanto quanto paradoxais e problemáticas.
            O Uno refere-se a Deus, dado que sua principal característica é a indivisibilidade, pois “É em virtude do Uno (unidade) que todas as coisas são coisas” (cf. VI, 9). A sua característica principal é, portanto, a simplicidade, que afirma sua transcendência.
            O Nous, é um termo filosófico que não apresenta uma transcrição direta para o português, mas poderia ser traduzido como uma certa atividade do intelecto ou da razão em oposição aos sentidos, os termos mais próximos que encontrei são “inteligência” ou “pensamento”, ainda que possa ter um significado ambíguo, pois em outros autores pode determinar diferente conceitos, pois para alguns Nous pode significar faculdade mental e entros uma certa qualidade de Deus ou do universo. Como vimos ao estudar a Metafísica de Aristóteles, Anaxágoras descreveu Nous como força motriz que formou o mundo a partir do caos, já Platão o define como parte racional e imortal da alma, da qual as grandes verdades emergem. Mas Plotino parece descrevê-lo como sendo uma das emanações ou precessões do Ser divino. A sua natureza é ser “pensamento-ser”, “unidade-multiplicidade”, pensamento perfeito que contém em unidade a multiplicidade.
            A Alma deve ser entendida na perspectiva de uma teosofia, pois é associada ao quinto princípio do homem (Minos), que seria o elo entre o espírito e a matéria. A alma é, porém, uma das hipóteses transcendentes e, portanto, é além da matéria, A matéria procede da Alma. A alma não é alma humana e sim a Alma subsistente que recolhe e unifica todas as outras almas.
            Assim a constituição do homem adapta-se facilmente ao três elementos essenciais: espírito, alma e corpo, sendo a alma o elo ente o espírito e o corpo, e aqui podemos fazer também clara referência a antropologia paulina. Para Plotino, o homem é a sua alma, o corpo não faz outra coisa que confundir e distanciá-lo da unidade e da simplicidade do Uno.
            A Obra apresenta ainda a Metafísica de Plotino, na qual os seres provém de Deus. O filósofo não se limita a atribuir aos seres a causa primeira exemplar e final, ou uma primeira causa motora, ou uma causa formal, mas determina a causa do seu ser. Fala desta causa a propósito de cada grau do ser, encontrando o princípio fundamental que dá unidade a toda a sua teoria.
            O princípio fundamental é que todo ser perfeito é causa eficiente perfeita, ou seja, manifesta a sua perfeição produzindo um ser à sua imagem, fazendo que sua causalidade goze de um caráter tríplice: a) o agente dá sem nada perder, assim como o vaso pleno transborda sem deixar de estar cheio; b) o efeito, por sua vez, é necessariamente semelhante à causa, participando da sua perfeição e nessa perspectiva não pode se separar dela e mesmo permanecendo intimamente unida e imanente, é também separado da causa, o Nous procede do Uno sem se confundir com ele, embora para ser Nous deve referir-se ao Uno. È a imagem mais perfeita do Uno, porém diversa a Ele; c) a perfeição do efeito nunca poderá se igualar aquela que é a sua causa, assim todo princípio é realmente distinto dos seus efeitos. Plotino afirma isso categoricamente, pois seria absurdo identificar o perfeito imutável com a imagem imperfeita que dele procede. (cf. V 3, 12-17)
            Plotino demonstra o seu princípio por analogia, evidenciando que todos os seres que atingem a perfeição, não repousam na esterilidade e transcendem a sua volta, como o fogo ilumina e aquece, a neve não conserva em si todo o frio etc. Assim o Ser Perfeito e Supremo não pode ser nem cioso da sua perfeição, nem impotente para comunicá-la e necessariamente há de comunicá-la, assim como todo ser perfeito na mesma medida de sua perfeição (cf. V 4, 1-2) . A origem desse princípio fundamental do pensamento neoplatônico de Plotino está na intuição do Ser Perfeito, que para ele é Bondade superabundante e ativa. A Partir disso o universo aparece constituído por uma hierarquia de seres que procedem e emanam uns dos outros segundo uma degradação descendente e contínua.
             Como seguidor de Platão, reduz ao mínimo o número de seres no mundo ideal e prova que não pode haver mais do que 3: primeiramente o SER necessário, plenamente perfeito, que tem o nome de Uno e sobre o qual não é preciso demonstrar sua existência, porque se impõe por si mesmo como fonte suprema de toda a realidade. Em seguida vem a dualidade essencial da Inteligência e depois a pluralidade, que é ainda unificada na Alma (cf. VI, 9), tendo-se sempre presente que no Nous é presente toda a multiplicidade.
            A Partir das leituras anteriores feitas nesse curso e no de Obras medievais notamos como tal pensamento influenciou a apologética cristã com essas armas filosóficas fornecidas por Plotino, o que faz sua leitura e estudo importante em nosso plano acadêmico. Contudo não é totalmente claro se Plotino toma para seu pensamento algo da revelação bíblica, sua doutrina é atraente do ponto de vista do estudo, porém devendo ser devidamente corrigidas algumas de suas teses mais fortes.

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