Platão - Eutifron

(Resumo)

          No diálogo “Eutifron”, Platão apresenta principalmente o tema da piedade, ou em sentido mais profundo, o tema da verdadeira religiosidade. Em seu tradicional estilo dialético, Platão faz também uma excelente exposição do método socrático baseado essencialmente em três etapas: refutação (elenkhos), aporia (aporia) e maiêutica (maieutikê).
Através da refutação da opinião (doxa) Sócrates leva ao estado da aporia (aporia) na qual se reconhece que nada sabe, tal situação apresenta a condição ideal para se produzir, ou melhor, para se dar a luz (parir) ao verdadeiro conhecimento através da maiêutica.
O diálogo entre Sócrates e o “adivinho e conhecedor dos deuses” Eutifron é situado por Platão na véspera do julgamento de Sócrates, talvez porque o filósofo quisesse demonstrar sua discordância com a condenação do mestre, apresentando também sua defesa, uma vez que mostra Sócrates como o mais religioso dos homens, ainda que tenha sido julgado e condenado por impiedade.

          Na Obra, a piedade é entendida como o que resulta do agrado dos deuses, pois assim a irão conceituar os dois personagens do diálogo. Eis o verdadeiro dilema do “Eutifron”: a piedade é o que é caro aos deuses ou é o cuidado pelas coisas divinas?

          Primeiramente a piedade é apresentada pelo personagem Eutifron da seguinte forma: “A piedade é perseguir os que cometem injustiça” (5d. 8-9), justificando assim, a própria postura de levar a julgamento o próprio pai a partir do exemplo de Zeus. A refutação inicial de Sócrates é feita com a anuência de seu interlocutor, pois “muitas coisas piedosas” não é a mesma coisa que “todas as coisas piedosas”. Nota-se que Sócrates vai em busca do conceito universal de piedade, demonstrando a inconsistência da definição dada pelo advinho a partir da contradição de decisões dos próprios deuses, confessada por Eutifron.

          A partir disso, surge uma nova reformulação do conceito de piedade feita por Eutífron, seria o resultado das ações gratas pelos deuses. O piedoso (hosios), seria portanto, o que é amado pelos deuses (prosphiles), enquanto que o impiedoso (anosios) seria o que nao agrada aos deuses (mêprosphiles). Através da dialética Sócrates demonstra a contradição e a invalidade dessa tese, uma vez que conduz a um relativismo pernicioso.

          Depois dessa afirmação surge uma nova, de que a piedade seria uma parte da justiça que respeita os cuidados para com os deuses e a restante parte da justiça seria em relação aos cuidados com os homens. Notamos que Sócrates chega a um novo conceito de ordem religiosa. Todavia, mostrando seu desempenho examinador, Sócrates ainda busca a verdade universal desta definição, procurando entender o significado de “cuidado” para Eutífron. O diálogo é conduzido de modo a demonstrar que o cuidado para com os deuses é uma espécie de serviço prestado, o que resulta em mais uma refutação socrática, requerendo portanto, um conceito novo e mais universal para o que seja piedade.

          Na verdade, Eutífron deveria formular outra tese melhor e mais consistente conforme os ditames da razão, isso porém não acontece e o diálogo termina em aporia. As diversas definições apresentadas por Eutífron, apesar de se fundamentar numa pretensa autoridade divina, foram refutadas por Sócrates de modo racional, pois não havia coerência nelas, visto que o mundo tradicional dos deuses gregos estavam repletos dos mesmo vícios e injustiças do mundo dos homens.

          Através dessa leitura, somos convidados a reconhecer que o resultado do diálogo não será a aquisição de um novo saber, e sim a anulação de um saber já estabelecido e arragonte, confirmando a tese de que quase sempre o saber dos homens é um acúmulo de opiniões sem sentido preciso e verdadeiro. Por isso a contradição a qual a dialética socrática conduz obriga a um “retrocesso geral” e à reconsideração da questão proposta.

          Na minha opinião, o principal propósito desta obra de Platão parece ter sido demonstrar que as religiões da época poderiam ser revistas e deveriam ser repensadas de uma forma mais racional. Platão não esta interessado em uma piedade pessoal e sim de uma piedade abstrata, ou melhor, à Ideia de piedade, pois a religião não deve ser rebaixada ao nível de um mero comércio entre deuses e homens, pois se assim fosse os deuses não seriam em nada superiores aos homens, resultando uma falsa religião.

          Portanto, a crítica existe, e é ou de Platão ao escolher este diálogo para escrever, ou de Sócrates, ao mostrar nas suas conversas, uma religiosidade filosófica racional e ética, no mínimo diferente da que estava vigente na época, mitológica e tradicional. Eutífron não sabia porque sabia e não sabia o que acreditava, sabia porque assim havia aprendido de outros (deuses) como adivinho. O resultado do diálogo pode ser, na minha opinião, interpretado como uma crítica e refutação de toda uma tradição religiosa grega representada por Eutífron e sua ignorância a respeito da verdade. Tal resultado teria uma relação com a condenação de Sócrares, uma vez que o motivo de sua morte foi feita a partir de uma elaboração imprecisa e falsa do que é piedade.

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