Platão - A República. (Livro VI e VII)

(Resumo)

A Republica é escrita em forma de diálogo sob aparência de narrativa feita por Sócrates a um auditório anônimo. O tema central da Obra é a Justiça, e nos Livros VI e VII, que nos propomos a analisar, apresentará especialmente as características do verdadeiros filósofo, como deve ser educado, que posto deve ocupar na organização política de uma cidade perfeita e ainda o conceito de Bem de Platão.

Platão discorre sobre uma República fictícia chamada Calliopolis (cidade bela), onde são discutidos, através da dialética assuntos relacionados à organização social ideal. Ao longo da Obra, o autor oferece uma visão de Constituição Perfeita para a Cidade-Estado, que deve ser governada pelos detentores da Sabedoria (filósofos). A Cidade deve ser justa, livre da exploração, das paixões, da ignorância e da discórdia. A educação (paidéia) deve ser o ponto de partida e também o principal instrumento de seleção dos filósofos. Nesse sentido, os que se deixam se guiar pela sabedoria e pela razão apresentam as melhores aptidões para serem os governantes da tal “cidade perfeita”.

Platão apresenta uma visão da alma humana (psiché) que irá influenciar direntamente na sua classificação dos postos a serem ocupados em tal cidade. Eis sua visão: a alma humana (psiché) é um composto de 3 partes, o apetite sensível, a coragem e a razão. Para ele, todo homem nasce com essa combinação, só que uma delas é sempre predominante sobre as demais, assim aqueles que se deixam levar pelas sensações motivadas pelo apetite devem permanecer nas classes inferiores da sociedade, os que se deixam predominar pela coragem e espírito resoluto devem fazer parte da classe dos guardiões (militar) e os que se deixam guiar pela razão e pela Sabedoria apresentam as melhores aptidões para ocupar os cargos de governo da almejada sociedade.

O Livro VI começa propriamente estabelecendo a distinção entre “quem é e quem nao é filósofo” e Sócrates irá dizer que “os filósofos são aqueles que são capazes de atingir aquilo que se mantém sempre do mesmo modo, e aqueles que não o são se perdem no que é múltiplo e variável.”
1

E como as leis e os costumes do Estado devem refletir o eterno, somente os filósofos, capazes de conceber as idéias eternas, devem ser estabelecidos governantes por serem capazes de observá-las, são ainda capazes de colocar a própria vida em segundo plano afim de se dedicar à busca ao saber que pode revelar algo daquela essência que existe sempre, e que não se desvirtua por ação da geração e da corrupção.

O livro apresenta ainda o conceito de BEM para Platão, que seria em primeiro lugar e com mais evidência, a finalidade ou alvo da vida, o objeto supremo de todo desígnio e toda aspiração. Em segundo lugar, a condição do conhecimento, que torna o mundo inteligível e o espírito inteligente. E em terceiro lugar e também mais importante, a causa criadora que sustenta todo o mundo e tudo que ele contém, aquilo que dá a tudo o mais a sua própria existência.

O Bem dá ser às essências, assim como o Sol permite a geração do sensível. Mas, assim como o Sol não é a geração, o Bem não é a essência, está acima dessas “em dignidade e poder”. O Bem é o princípio de todo os ser, mas não fala, não se revela, não é objeto de fé, pois é objeto da Inteligência. Distinguem-se dois gêneros de realidade: o visível e o inteligível. Cada um desses, divididos em dois níveis, dão origem a 4 tipos de conhecimento, cada vez menos verdadeiros: inteligência, ciência discursiva, fé ou crença, e suposição ou conjecturas.

Sócrates, no Livro VI, argumenta que enquanto o sol “reina” na esfera sensível, o Bem “reina” ma esfera inteligível e o paralelo entre o sensível e o inteligível gera a comparação entre os seguintes elementos:


Mundo sensível
è
Mundo inteligível
Sol
è
Idéia do Bem
Luz
è
Verdade
Objetos da visão (cores)
è
Objetos do conhecimento (idéias)
Sujeito que vê
è
Sujeito cognoscente
Órgão da visão (olhos)
è
Órgão do conhecimento
Faculdade da visão
è
Faculdade da razão
Exercício da visão
è
Exercício da razão
Aptidão para ver
è
Aptidão para conhecer



Essa idéia de Bem exposta aqui é a chave de leitura para compreender as realidades inteligíveis, que será o modelo que deve ter em conta todo aqueles que tiver o dever de governar, revela ainda estrutura da Cidade-Estado apresentada na República, bem como sua respectiva ramificação social e forma de organização política. Nessa perspectiva, li na introdução à edição portuguesa, o seguinte esquema que me ajudou muito a compreender tudo isso.

No Livro VII Platão aborda o tema do futuro governo filósofo e as virtudes sobre as quais deve ser constituído o Estado Ideal (sabedoria, coragem, temperança e justiça), que só podem ser conhecidas, úteis e valiosas a partir da idéia de Bem exposta especialmente no livro anterior.

A partir dela tudo se torna compreensível, mas para que o futuro filósofo-rei, atinja o Bem, é preciso “sair da caverna e contemplar o sol”. E para expressar melhor tal percurso o autor apresenta a alegoria ou mito da caverna, que é também uma excelente representação da República.

O mito apresenta homens com as pernas e pescoços algemados em uma caverna desde a infância, estão voltados contra a abertura por onde entra a luz de uma fogueira ascesa na parte de for a dela. Tais homens conhecem apenas as sombras das realidades exteriores que se lhes são apresentadas através de figuras que passam projetadas na parede, bem como os ecos de suas vozes. Se um dia um desses homens conseguisse se soltar e fosse obrigado a olhar para a luz, sentiria muita dificuldade e não saberia imediatamente reconhecer os verdadeiros objetos da realidade. Mas se viesse para for a da caverna e olhasse para as verdadeiras realidades até vencer os deslumbramento, acabaria por conhecer tudo de modo perfeito e consequentemente passaria a desprezar o saber que antes possuía dentro da caverna. Se voltasse para junto dos outros homens algemados dentro da caverna seria por eles debochado, já que estes estão habituados às sombras, seria mesmo visto como néscio e se se arriscasse a tirá-los daquela escuridão, correria até mesmo risco de morte, no entanto não desistiria, porque é impelido pelo amor a Verdade e, para Platão, Sócrates é a representação mais perfeita disso.

Ainda no Livro VII, apresenta uma espécie de disciplina mental a ser seguida pelo filósofo-rei afim de desenvolver o pensamento abstrato capaz de atingir a sabedoria. Por isso discorre sobre vários ramos do conhecimento: matemática em seus 3 segmentos
2, a aritimética, que facilita a passagem da alma da mutabilidade em relação a direção à verdade e à essência3, seguida da geometria plana e da estereometria; a astronomia, que estuda o movimento que os corpos produzem; e a harmonia, que são os sons que os corpos produzem. Todas essas ciências tem o objetivo de preparar o espírito para atingir o mais o plano mais elevado cuja finalidade é o conhecimento do Bem4 e para esse aprendizado serão selecionados os mais bem dotados e somente depois de atingirem os 30 anos de idade.5

A relação entre a ordenação dos estudos e os graus do conhecimento é explicado da seguinte forma: “Bastará pois que, como anteriormente dissemos, chamemos ciência a primeira divisão, entendimento à segunda, fé à terceira, e suposição à quarta, e opinião às duas últimas, inteligência às duas primeiras, sendo a opinião relativa a mutabilidade, e a inteligência à essência.” 
6

__________


1PLATÂO, A República, livro VI 484b.
2Cfr. Ibidem, VII, 525b-d.
3Cfr. Ibidem, VII 525c.
4Cfr. ibidem VII 533b-e.
5Cfr. ibidem VII 537d.
6Ibidem , VI, 533e-534a.

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