Parmênides - Poema Sobre a Natureza

(Resumo)

O Poema “Sobre a natureza” de Parmênides apresenta como tema principal o Ser. Podemos dividi-lo em 2 partes distintas entre si, seja em relação ao conteúdo, como também ao gênero literário: 1ª) Proêmio (Fr 1); 2ª) parte ontológica ou metafísica (Fr 2-7) que fala sobre as características do caminho da verdade (Fr 8, 1-49) e sobre a opinião, doxa, (Fr 8,50 até o fim da obra).
Em relação ao gênero literário, o proêmio tem caráter claramente poético-mítico, bem ao estilo grego clássico, a segunda e terceira parte possui um caráter altamente argumentativo e lógico e no fim do poema, Parmênides retoma o estilo poético, porém com conteúdo cosmológico muito semelhante aos escritos contemporâneos ao filósofo.
O proêmio narra a “viagem de espírito” de Parmênides conduzido pela divindade a fim de purificar o conhecimento e encontrar o caminho da verdade, o que faz dele um “iluminado”, pois a maior parte dos homens não percorre este caminho. Apresenta um duplo objetivo, demonstrar a escola filosófica frequentada por ele, já que faz referência semântica aos mais variados filósofos e poetas da tradição grega (Homero, Hesíodo, Anaximandro, Heráclito, Xenófanes e escola pitagórica) e também de exortar o leitor, pois no final justifica a divisão formal do poema.
Tal viagem simboliza a passagem do conhecimento sensível imediato e superficial ao conhecimento racional filosófico. Parte do reino dos entes sensíveis, objeto de opinião captado pelos sentidos, e chega ao ser, verdade, captado pela razão, ou seja, da multiplicidade dos entes diversificados pela opinião (dóxa), para a unidade do Ser, reino da verdade uma e universal (epistéme). Equivale dizer, do reino do Devir e da instabilidade para o reino do Uno, imutável e imóvel.
A partir do encontro com a deusa (Fr 1, 24) começa o discurso a respeito do caminho da verdade (epistéme) e da opinião (doxa). A deusa afirma que o caminho da verdade só pode ser atingido através do abandono do conhecimento sensível em direção ao conhecimento racional, a fim de descobrir e desvelar a verdade escondida nos seres, imutável e imóvel. Justamente por isso é um caminho difícil e não habitualmente frequentado pelos homens, geralmente presos ao conhecimento sensível, contingente e equívoco.
O caminho da opinião (doxa) é explicado como um primeiro discurso que não é digno de confiança, aparenta ser verdadeiro, mas não o é, uma vez que tem como objeto também o não ser, que na verdade não é e não pode ser.
Na segunda parte do poema a deusa explica o caminho correto a ser seguido pelo sábio: o caminho do ser, da verdadepois o não ser não pode ser pensado e nem mesmo dito, pois “O mesmo é o que é a pensar e o pensamento de que é (Fr 8,34)”, ou seja, o mesmo é pensar e serPorque o ser e o pensar são idênticos, já que o “pensar” se assenta no próprio pensamento, que é oposto ao conhecimento sensível, parcial e contingente. O ser e o pensar se identificam, segundo a divindade, porque se refere à possibilidade de se conhecer o Absoluto, pois somente quando o pensamento está ligado a este ele não erra. Assim só se erra (doxa) quando o Ser absoluto é abandonado em virtude do conhecimento sensível. A deusa estabelece ainda a natureza do pensamento radicada no Ser, onde não existe o nada. Logo, como vimos em sala de aula, chega-se ao princípio de identidade.
Ainda na segunda parte surge uma referência aos “homens de duas cabeças” que parece aludir á dialética dos contrários de Heráclito e a alguns elementos do escola pitagórica, que atribuíam o início (arché) aos opostos (limitado e ilimitado, par e ímpar). Na minha opinião parece também criticar o espírito humano (falível) em comparação ao espírito divino (infalível).
Portanto, além do proêmio, cujo objetivo já expliquei acima, as outras partes do poema visam demonstrar 2 coisas: o pensamento unívoco (a Verdade) e o pensamento equívoco (as opiniões). O que é necessariamente singular e o que é necessariamente plural. São caminhos que não se cruzam e tem em comum apenas o fato de serem modos de pensamento, um é verdadeiro e o outro errante (Fr 6,6).
O conteúdo do poema a respeito das opiniões praticamente obrigou-me a ler também a terceira parte do poema, ainda que não estivesse prevista, questionando-me o por quê de se dedicar ainda uma reflexão sobre elas já que conduzem ao erro e encontrei a seguinte resposta: as opiniões ainda que errôneas, são inevitáveis, uma vez que são consequência de todo e qualquer discurso a respeito do que é real e também porque ao descrever o caminho das opiniões fica ainda mais evidente o seu caráter falível.

A leitura do poema me deixou claro a importância do caráter lógico-racional da filosofia para chegar ao conhecimento da verdade. Ao mesmo tempo convenceu-me porque Parmênides é apresentado como o homem “iluminado” (Fr 1,3), pois conhece a tradição mítico-poética (proêmio), a lógica da não contradição (verdade) e a lógica da contradição (cosmologia/opiniões)

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