Kierkegaard - Doença até a morte (III)


          Nesta última parte do texto, que nos propomos a analisar, Kierkegaard analisa o desespero, visto sob a categoria da consciência, pois e ela que mede a intensidade sempre crescente do desespero humano. Nessa linha propões duas abordagens: a) o desespero que se ignora ou a ignorância desesperada que ignora o eu, um eu eterno e b) o desespero consciente de sua existência.
        Quando analisa (a) o desespero que se ignora, considera que a angústia consiste em pensar estar no erro e citando Sócrates como exemplo, que constrói um pensamento esplendoroso e altamente iluminativo para toda humanidade, porém quando se olha para sua vida privada o que se vê é pobreza e simplicidade estremas, o que revela a própria síntese e contradição que é o homem. Ao lado deste tipo de desespero consciente está o daquele que ignora o que realmente importa, a salvação eterna, “contudo, só num sentido, em pura dialética, o desesperado que se ignora está realmente longe da verdade e da salvação do que o desesperado consciente, que se obstina em sê-lo; pois que, em outra acepção, em dialética moral, aquele que permanece consciente do desespero está mais longe da salvação, visto que seu desespero é mais intenso.[1]
        Ao analisar (b), o desespero que se ignora, impõe uma distinção “sabe o desesperado consciente, com precisão, o que é o desespero?(...)No fundo, tu é-lo muito mais ainda do que supões, o teu desespero tem raízes ainda mais fundas.[2] Assim, o homem que é consciente de um  “eu” com certa eternidade possui duas formas de desespero, uma que se deseja ser a si próprio e outra na qual não deseja sê-lo.
      Quando deseja ser si próprio, consciente de estar sendo ou vivendo de modo diverso aquele que lhe deu o eu, o desespero é também consequência do conhecimento das próprias fraquezas, porém este homem tem mais possibilidade de encontrar o seu eu, e a vida estética que consiste na frivolidade pode fazê-lo perceber que se faz necessário chegar a própria condição dialética, de profundidade do eu autêntico.
        Num segundo momento, Kierkegaard fala ainda de um desespero quanto ao eterno ou de si próprio, que consiste no desejo de querer ser a si próprio ou não a partir do momento da consciência da própria condição que a finitude implica. Partindo da premissa do “eu” (dialética=síntese de finito e infinito) se recebe de Deus e somente é possível encontrar este eu na própria relação com Ele. Querer encontrar-se com o eu, implica, portanto, querer relacionar-se com Deus, como dizia S. Josemaría Escrivá: “Se queres os fins deves querer também os meios”.
      Podemos afirmar que aqui o autor também fornece uma definição de pecador, como sendo aquele que sendo consciente da condição de desespero, não quer encontrar o seu eu autêntico, em última instância, recusa a relação com Deus e o obstinado é aquele que quer afirmar-se a si mesmo sem Deus e contra Deus.
       Ainda sobre o desespero segundo as categorias da consciência, existe um desespero no qual “queremos ser nós próprios, ou desespero-desafio,[3] que pode ser ativo ou passivo, porém em ambos os casos é realizado sem a relação adequada com Deus, aumentando ainda mais o desespero.
        Ao terminar a leitura da obra “Doença até a Morte” de Kierkegaard minha conclusão pessoal é que o autor teve o mérito de colocar seriamente a questão do sentido da existência humana no centro de sua reflexão filosófica e embora sua impostação faça sempre referimento à relação com Deus, nem por isso deve ser lido preconceituosamente por quem não é crente.

          Ao falar do desespero humano, Kierkegaard está colocando o questionamento sobre o sentido da vida humana de forma séria e muito filosófica, como já o fizera, ao meu ver, outros autores, mas em especial Pascal, que situa o homem entre uma espécie de síntese entre o finito e o infinito. A leitura da obra, permite ainda uma grande reflexão sobre filosofia da religião e também fornece muitos mecanismos para uma crítica séria da “teologia da prosperidade” que surge especialmente em contexto latino-americano, pois sua reflexão parte sobretudo daquilo que é a essência da religião, ou seja, a relação com o criador (aquele que dá o “eu”) e, num segundo momento, a relação com o mundo, ao passo que tais seitas, fazem uma verdadeira inversão religiosa, pois tal relação com Deus vem desvirtuada essencialmente, pois Deus não é mais aquele que doa o “eu”, mas apenas aquele que em certa forma está obrigado a fazer este “eu” mais feliz, porém uma felicidade subjetiva, uma vez que baseia-se apenas na auto-afirmação de si perante o mal.




[1]KIERKEGAARD, Soren. O Desespero Humano (Doença até a morte). Col. Os Pensadores. Ed. Abril Cultural. Rio de Janeiro. Pág. 352. (versão digital)
[2]Ibidem, pág. 355
[3]Ibidem, pág. 373

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