São Boaventura - A recondução das ciências à Teologia

São Boaventura em “A recondução das Ciências à Teologia”, assim como no Itinerarium, busca explicar que o cristão só pode compreender o mundo em função da fé. Nessa perspectiva, inteligência e contemplação, fé e pensamento se relacionam e se interpenetram e mesmo se confundem ente si. O objetivo da Obra é demonstrar que em essencialmente estas realidades são expressões diversas e vias comuns do homem em direção ao Criador. É um texto que permanece atualíssimo levando em consideração  a frequente separação e aparente oposição entre e ciência e fé presente em nossos dias e tematizada no magistério recente da Igreja, em especial na encíclica Fides et Ratio de João Paulo II e também constante na pregação de Bento XVI.
Uma autêntica visão contemplativa da existência cristã exclui a visão de uma natureza neutra e indiferente e quando iluminada pela graça, chamada na obra de “luz da fé”, faz que a natureza se liberte da condição de mero reservatório de energia e, num diálogo com a filosofia contemporânea, liberte o homem da “vontade de poder”, como dizia Nietzche. Como bom franciscano, o santo medievo demonstra que contemplar a natureza é ver a difusão de si mesmo e transcender às realidade imanentes, já que o bem é difusivo.



A obra demonstra que Deus é a Luz maior, da qual derivam várias outras, por isso não se deve temer as ciências e sim reconduzi-las ao caminho certo, Deus. Eis a ordem das luzes que emanam da Luz Maior; a primeira supre as necessidades do proveito e do prazer do corpo, a segunda está relacionada com os sentidos e permite aos homens perceber as formas corpóreas tornando-as luz interior; a terceira diz respeito ao conhecimento advindo da reta filosofia “(...) que se chama interior, porque inquire as causas interiores e secretas, o que se obtém pelos primeiros princípios das ciências e da verdade natural.[1]
Assim, essa luz se divide em racional, natural e moral. A racional proporciona a compreensão do discurso, a natural o entendimento das coisas em sua totalidade e a moral corresponde a Luz dos costumes. Reconduzir as ciências à Teologia significa ordenar a filosofia de três formas, quando rege o entendimento das faculdades motoras é moral, quando relacionado ao conhecimento próprio e natural, e quando se insere na faculdade interpretativa é discursivo.
A filosofia quando bem utilizada é instrumento riquíssimo para a compreensão da fé e da verdade revelada, “(...) por isso, a filosofia discursiva, ou racional, divide-se em gramática, lógica e retórica, sendo que a primeira ordena à expressão, a segunda à instrução e a terceira à persuasão”[2].
Nessa perspectiva as ramificações das ciências adquirem particular relevância, em especial a gramática, que ajuda a desenvolver a apreensão, a lógica o julgamento, a retórica a função motiva e por isso todas fazem parte do discurso reflexivo e são poderosos instrumentos da veracidade e da elegância em direção às três “luzes”.
Existe ainda uma quarta e última luz, mais importante do que todas, porque conduz às realidade mais superiores, a Sagrada Escritura (tripartida em alegórica, moral e anagógica, que iluminam acerca da realidade sobrenatural e provém do Pai das luzes. Esta quarta e mais importante luz, embora única é também tríplice e iluminam o saber moral que ensina ao homem como ele deve viver e também clarifica o aspecto anagógico, que ensina ao homem como aderir a Deus.
Acrescenta ainda, que as luzes podem ser entendidas por uma divisão em seis partes, como aliás também o faz no Itinerarium, e se referem à Sagradas Escrituras, ao conhecimento sensitivo, à arte mecânica, à filosofia racional, à filosofia natural, à filosofia moral: “Portanto, há seis iluminações nesta vida, e elas terão ocaso (...) e suceder-lhe-á o repouso do sétimo dia, que não conhece o ocaso, o que é a iluminação divina (...)[3].






[1]SÃO BOAVENTURA. Redução das ciências à Teologia. In: Obras Escolhidas. Org. Luis A. De Boni. Trad. De Luis A. De Boni, Jerônimo Jerkovic e Frei S. Schneider. Porto Alegre, Editora da Universidade de Caxias do Sul: 1983. 
[2]Ibidem.
[3]Ibidem.

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