São Boaventura - Itinerário da Mente a Deus (Cap I a IV)


O Itinerário da mente a Deus foi considerado por muitos comentadores, a principal Obra de São Boaventura, ou pelo menos, aquela expressa de forma mais evidente sua escola filosófica e mesmo teológica, caracterizada por um espírito que lhe é próprio e escolhido conscientemente em direção a um fim bem determinado, o Amor de Deus. Pretendo nesse breve resumo destacar alguns elementos que me chamaram atenção na leitura, tendo em vista os últimos textos sugeridos em nosso plano de estudos.
Diferentemente de Sto Anselmo (Menologium) e mais ao estilo de Sto Agostinho (De libertate arbitrii), São Boaventura não apresenta restrição em fazer filosofia com clara referência a Revelação, como se nota na obra em diversos trechos e em especial já no primeiro parágrafo “Começo por invocar o primeiro Princípio, isto é, o eterno Pai, 'Pai das luzes', fonte de todo conhecimento (gnosis) (...) Invoco-O por meio de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, para que pela intercessão da Santíssima Virgem Maria (...) 'ilumine os olhos' (Ef 1,17 ss).[1]Este aspecto deve ser levado em consideração porque revela a própria forma e finalidade com a qual o santo enxerga a filosofia, como um instrumento para se chegar a Deus.
Além disso, o obra revela a visão gnoseológica do santo, e o papel fundamental da graça, no processo de conhecimento de Deus, a clara alusão e desenvolvimento da teoria da iluminação também expressa por Santo Agostinho e ainda sua visão antropológica.
Para o santo, a alma humana apresenta em si uma imagem imperfeita do próprio Deus, e através dela (sentidos, espírito e mente), iluminada pela graça, poderá contemplar essa imagem de um modo mais perfeito. “Segundo esta tríplice maneira de nos elevarmos progressivamente a Deus (isto é: pelas criaturas, pela alma e por Deus), a nossa alma possui três principais vias para perceber. Na primeira, olha sobre as coisas corporais e exteriores — pelo que se chama 'animalidade' ou sensitividade. Na segunda, olha sobre si mesma e dentro de si mesma — e se chama, por isso, espírito. Na terceira, olha acima de si mesma — e se denomina então mente. Estas três faculdades devem servir-nos para elevarmo-nos a Deus, para amá-l'O 'com toda nossa mente, com todo nosso coração, com toda nossa alma'(Mc 12,30).[2]
O objetivo da obra não é meramente a especulação racional e sim a fé, e é a serviço dela que a filosofia adquire importância, pois passa a ser fundamental para se compreender o que se ama.
O capítulos 1 e 2, traduzidos em português como “A elevação a Deus por meio do universo” e “A contemplação de Deus nos seus vestígios impressos no mundo sensível” expressam essa realidade, bem como a influência da teoria da iluminação agostiniana, como se vê no emprego dos termos “vestígio” e “imagem”.
O primeiro é aplicado às criaturas, tanto as espirituais quanto as corporais, que representam Deus como causa determinada e inconfusa (causa eficiente, formal e final), pois os vestígios levam ao conhecimento (gnosis) dos atributos peculiares a Deus, como o poder, sabedoria, bondade e por isso permitem vislumbrá-Lo. Assim, quando o santo fala da contemplação de Deus “ad extra” refere-se a subida progressiva da alma em direção a Deus realizada através das criaturas. Portanto, contemplar Deus nos seus vestígios significa contemplá-Lo não já no mundo exterior ao homem, mas no mundo, que na sua semelhança intecional divina, entra no homem pela porta dos sentidos.
O termo “imagem” deve ser explicado aos seres que também são espirituais, incluindo o homem, e através dos quais se pode contemplar os atributos próprios da Trindade, tais como paternidade, filiação etc. E é justamento por meio da “imagem” que o homem pode assemelhar-se a Deus pelo conhecimento e pelo amor, Como expressa de modo particular nos capítulos 3 e 4, “A contemplação de Deus por meio de sua imagem impressa nas potências da alma” e “A contemplação de Deus na sua imagem: a alma renovada pelos dons da graça”.
Outros aspectos ainda me chamaram atenção, tal como o papel do desejo na busca de Deus, “(...) o desejo tem por objeto principal aquilo que mais nos atrai. Ora, o que mais nos atrai é aquilo que mais amamos. E o principal objeto do amor é a felicidade. Mas a felicidade não se encontra senão no sumo Bem[3] e ainda como especifica os diversos aspectos da alma e suas respectivas finalidades, “Vê, pois, como a alma está próxima de Deus. Vê como a memória nos conduz à eternidade, a inteligência à verdade, a vontade à sua bondade soberana, de acordo com as suas respectivas operações.”[4]
observações do “mestre” Mons. Clavell 
- considerações sobre a Teologia simbólica >



[1]BOAVENTURA, S., Itinerarim mentis in Deum, Prólogo, 1.
[2]Ibidem, cap. I, 4.
[3]Ibidem, cap. III, 4
[4]Ibidem, cap III, 4. (O papel do desejo humano na busca de Deus foi também comentada na perspectiva de S. Boaventura pelo Papa Bento XVI em “Jesus de Nazaré”, vol. 1.





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