Santo Anselmo - Monológio

(cap I-XIV)

Santo Anselmo compõe o Monológio em 1076 a pedido do bispo Lanfranco, a quem dirige uma carta no início da Obra e também dos monges do mosteiro ao qual era Abade, que pediram insistentemente para colocar em escrito aquilo que ouviram falar de seu mestre e prior em suas meditações[1]. A obra tem um objetivo claro, mostrar tudo o que é possível sobre a Essência Divina, sem recorrer às Sagradas Escrituras,  Fica claro também a influência de Sto. Agostinho em sua formação, pois ele mesmo o cita em seu Prólogo, e segundo o próprio autor, a leitura de tal introdução é fundamental para compreender o que pretender expor[2]


Para melhor compreensão da obra, devemos também levar em consideração o contexto filosófico em que foi escrita, pois havia uma discussão fervorosa entre dialéticos e teólogos, conforme assinala Etiene Gilson, “a pretensão ostentada por alguns de submeter o dogma e a revelação às exigências da dedução silogística, deveria conduzi-los infalivelmente a conclusões mais radicais, ao mesmo tempo que deveria suscitar a mais violente reação de parte dos teologos.[3]
Seguindo, portanto, a premissa “crer para entender e entender para crer” agostiniana, Anselmo se dispõe a escrever o Monológio, sem medo algum de estar fazendo algo contrário a fé e com a certeza de estar prestando um grande serviço a ela, pois acreditava piamente que um cristão não pode descurar daquilo que crê e ainda mais, deve saber dar razão ao que crê.
Antes de adentrar no conteúdo do Menológio, podemos notar também que está muito claro para o santo, que a fé não se opõe jamais à razão, visto que Deus mesmo deixou sua marca em suas criaturas, e o reto uso da razão contitui uma via para o conhecimento de Deus. Idéia esta que esta muito presente ainda hoje, se levarmos em conta em especial o pontificado de Bento XVI e também de João Paulo II, que dedicou uma profunda reflexão a respeito do tema na encíclica Fides et Ratio.Posto estas idéias fundamentais, mergulhemos no conteúdo da obra.
O dado em questão é a existência de Deus, o Ser do qual não se pode conceber nada mais grandioso nem mais perfeito, como acreditam os cristãos. O problema que a Obra se propõe a resolver racionalmente é se Ele existe realmente ou apenas como conteúdo do pensamento humano.
O Menológio, “Exemplo de Meditação sobre as razões da Fé”, traz quatro grandes argumentos para demonstrar racionalmente a existência de Deus.
Afirma que uma coisa é certamente maior (mais perfeita) se existe não apenas no pensamento, como também na realidade.  Assim o “Ser do qual não é possível pensar nada maior” existe obrigatariamente na realidade, pois se existisse apenas na inteligência forçaria a recorrer a um outro ser existente não apenas no pensamento, mas também na realidade e que seja maior (mais perfeito) do que o primeiro. Dessa forma conclui que Deus é este Ser e que existe no pensamento e na realidade.
Podemos dizer que a explicação das “provas” da existência de Deus de Santo Anselmo recorrem ao conceito de participação, bem como da observação atenta da realidade na qual se percebe as diferentes escalas de perfeição presentes nos entes. Em  outras palavras, o fundamento da existência das coisas (ser per aliud) está necessariamente na existência da Suprema Natureza (ser per se), pois se assim não fosse o devir das coisas seria contraditório.
O primeiro argumento parte da percepção de que o conceito de “bondade” é atribuído de um mesmo modo a diferentes realidades e para ele, isso só é possível devido a existência de um Bem Uno, Idêntico em si, Superior, e Absoluto, em virtude do qual todos os outros bens recebem a bondade por participação. A mesma linha de raciocínio é seguida com os conceitos de “grandeza” (em sentido qualitativo) e de “existência.”
O quarto argumento, retomando os anteriores, parte dos diversos valores atribuídos as diferentes coisas existentes, constatando que algumas tem mais valor do que outras, assim tanto as que possuem mais quanto as que possuem menos fazem referência a uma realidade Suprema que possui pleno Valor em si e por si.
Podemos concluir que os argumentos da prova da existência de Deus em Santo Anselmo possuem três fundamentos: a) uma noção de Deus fornecida pela fé; b) a convicção de que existir no pensamento já é verdadeiramente existir; c) a existência lógica de que a existência da noção de Deus no pensamento exige que se afirme sua existência também na realidade.
Demonstrada a existência de Deus, o autor procura deduzir as consequências referentes aos atributos do Ser Supremo. E as conclusões anteriores (Deus Supremo Bem e Ser mais Grandioso) permitem concluir que a Ele também se deve atribuir todas as perfeições, assim será a máxima Sabedoria, Verdade, Potência, Justiça e Beatitude e tai atributos pertencem a Ele não como qualidades exteriores agregadas à sua essencia e sim idênticas a ela, pois Deus não participa de nada e é “por si mesmo” tudo aquilo que é. E tudo aquilo possui ser, só o possui na medida em que derivam de Deus.





[1] cfr. ANSELMO, Sto., Menológio. Col. Os Pensadores. São Paulo. Nova Cultural. 2a. Ed. 1973. pag. 15-16.
[2] Ibidem, pág. 16.
[3] GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média. São Paulo. Martins Fontes. pág. 281.

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