Santo Anselmo - Sobre a liberdade do arbítrio

O livro é escrito em forma de diálogo entre dois personagens identificados como Mestre (aquele que responde) e Discípulo (aquele que pergunta). Apresenta de modo especial o tema da Liberdade do Arbítrio. Observamos estreita ligação com o pensamento de Santo Agostinho e Boécio comentados nas aulas anteriores.
Podemos considerar o primeiro capítulo como programático onde fica claro o objetivo do santo que pode ser resumido nas seguintes questões: a) investigar o que é liberdade. b) se sempre a possuímos. Anselmo busca expor uma definição de liberdade de arbítrio a partir da qual o arbítrio e a própria vontade sejam reconhecidos como livres.
O santo negará uma definição de liberdade como alternativa entre o poder pecar (posse pecare) e o não poder pecar (posse non pecare), a reflexão segue a seguinte linha de raciocínio. Se a liberdade fosse o poder da alternativa, ela não seria um atributo de Deus e dos anjos, uma vez que estes não podem pecar. Não penso que a liberdade do arbítrio seja a potência de pecar e de não pecar. Com efeito, se fosse esta a definição dela, nem Deus nem os anjos, que não podem pecar, teriam livre arbítrio, o que não se pode dizer.”[1]
Assim o santo exporá uma visão de liberdade distintivamente negativa expressa na definição da liberdade do arbítrio, que determina também a definição da liberdade do arbítrio, e que é sobretudo nao sujeito à necessidade.  “Pelo livre arbítrio, pecou o anjo apóstata ou o primeiro homem, porque pecou pelo seu arbítrio, que era de tal modo livre que por nenhuma outra coisa poderia ser coagido a pecar. E, por isso, é justamente repreendido, porque, com a condição de ter esta liberdade do seu arbítrio, pecou sem alguma coisa coagente, sem alguma necessidade, mas espontaneamente pecou pelo seu arbítrio, que era livre; mas não pela causa de ser livre, isto é, pelo poder pelo qual podia não pecar e não servir o pecado, mas pelo poder que tinha de pecar, pelo qual não era exortado para a liberdade de não pecar nem era coagido à servidão de pecar.[2]
 Mesmo tendo claro que o livre arbítrio de Deus e dos anjos são distintos aos do homem, ele tenta encontrar uma definição que tenha validade para todos. Assim apresenta a seguinte solução: Deus, os anjos e os homens sao LIVRES, ou seja, estão sobre uma definição de liberdade, no entanto isso não significa que são igualmente livres. no último capítulo da obra, ele vai expor uma divisão da liberdade segundo a presença ou não da retidão da vontade, o que é essencial para compreender seu pensamento, em estreita linha com Santo Agostinho.
Assim sendo, a vontade passa a ter papel central nesse processo, e a vontade mais livre é aquela que tem o que convém, que é mais vantajoso e o que não pode ser abandonado, diferentemente daquela que tem o mesmo bem, mas pode perdê-lo e ser conduzida ao que é nocivo, podendo até mesmo se tornar escrava do pecado. O que leva a concluir que o objetivo da liberdade do arbítrio é salvaguardar a retidão da vontade, “Portanto, uma vez que toda a liberdade é poder, aquela liberdade do arbítrio é o poder de guardar a retidão da vontade pela própria retidão”[3]
Santo Anselmo considera o livre arbítrio dotado de espontaneidade, em oposição a toda e qualquer necessidade ou coação, e nessa perspectiva se pode afirmar que ação é livre e o homem e os anjos receberam essa faculdade para afirmar as suas respectivas dignidades para querer aquilo que deveriam e seria mais vantajoso querer e ainda mais, a liberdade foi dada em vista da retidão da vontade e para conservá-la.
A partir disso podemos concluir que os elementos essenciais da liberdade do arbítrio são: a) toda liberdade é poder. b) é dada por Deus à criatura racional. c) para que seja conservada por ela mesma. Portanto a liberdade do arbítrio é o poder conservar a retidão da vontade através da própria retidão.






[1] cap. 1.
[2] cap. 2.
[3] cap. 3.

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