Boécio - A consolação da filosofia - Livro V

No livro V de “A Consolação da Filosofia” Boécio, através do diálogo com a filosofia, representada por uma bela e formosa mulher, nos apresenta os conceitos de Providência, destino, acaso e livre arbítrio e principalmente como eles se relacionam entre si. O texto traz ainda uma pela explicação do tempo e do mal, em consonância com a concepção agostiniana expressa no livro XI das Confissões.
O seu elegante estilo lírico e altamente argumentativo, na minha opinião é um verdadeiro convite a perceber a importância da filosofia como caminho seguro em direção à verdadeira beatitude como diziam os filósofos clássicos, que aliás são muito bem conhecidos e representados por Boécio.
Boécio assim apresenta o conceito de providência, “A Providência é aquele plano divino, existente na mente do Senhor do mundo, que tudo ordena” (livro V,6).
O destino é apresentado como encadeamento de causas ou ainda uma inerente disposição a tudo aquilo que pode se mover. Cabendo a ele organizar, na multiplicidade e temporalidade tudo o que foi fixado pela Providência, pois a regra multiforme com que Deus governa o universo comporta uma unidade imutável da providência e a ordem variável do destino. Assim, nenhum fenômeno se dá sem que seja produzido acidentalmente ou por um encadeamento inevitável de causas, pois nada se dá partir do nada.
Assim, fica claro também o que vem a ser o acaso, um fenômeno inesperado, cujas causas resultam de circunstâncias fixadas pela providência e não da ação intencional do homem.
O Livro V apresenta como tudo isso se relaciona, sendo explicado de maneira belíssima pela Bela Filosofia e compreendida à altura por Boécio.
A aparente contradição entre o livre arbítrio do homem, destino, acaso e providência é explicada a partir do seguinte raciocínio. A providência de modo algum torna ilusória o livre arbítrio do homem, pois uma ação livre deve estar acima de qualquer cálculo e não pode ser por consequência ser conhecida previamente nem mesmo por Deus.
A aparente contradição é compreendida a partir da consideração da eternidade de Deus (livro V,6). O tempo não se apresenta para Deus como para o homem, apresenta a obra de Boécio, em perfeita consonância com Santo Agostinho. Pois para o homem o tempo está ligado à sucessão – passado, presente e futuro. O ser criado não pode abranger de uma só vez a plenitude do ser e por isso, percorre um caminho indefinido, o tempo. E aqui vemos a consonância com Aristóteles.
Deus, no entanto, abarca a totalidade do ser num “agora” único, atemporal e simultâneo e nisso consiste a sua eternidade. É a posse simultânea de uma vida interminável. O momento humano, com a sua imperceptibilidade e fugacidade é apenas uma fraca imagem daquele daquele eterno e atemporal “agora”, e aqui vemos certa sintonia com Platão. O momento humano proporciona ao homem que o vive o suficiente para ter a ilusão da vida.
Portanto é necessário distinguir a pura eternidade como ausência de tempo (aeternum) e uma eternidade no sentido de um fluxo indefinido do tempo (perpetuum), que pode talvez convir ao mundo. Por isso não há para Deus nenhuma pré-vidência , pois tudo que para o homem é futuro é para presente em seu eterno agora. E mesmo que o homem mude seus planos e decisões, a partir do livre arbítrio tentando “enganar” a Providência, tudo é visto por Deus num mesmo e eterno agora, e o que nós planejamos já se encontra realizado no conhecimento de Deus. “Deus já nos contempla na Glória”, dizia-me sempre um jovem amigo da época seminarística.
A partir daí, podemos ver que o conhecer de Deus abarca as decisões livres com segura necessidade, não porque elas devam se realizar necessariamente, mas porque o acontecido de fato  livremente, considerando bem as coisas, ainda que na sua contingência, no momento mesmo da sua realização, pode ser conhecido como se tendo realizado necessariamente do modo para o qual se realizou e não de modo diferente.
Considerando também a leitura do livro III proposta anteriormente em nossa aula, podemos afirmar com segurança, seguindo a escola proposta por Boécio, que somente quando se opta por se distanciar do alcance do destino e das falsas felicidades trazidas pela fortuna, voltando-se para si próprio para contemplar a origem e destino das coisas, o homem pode finalmente obter o bem em si e participar da verdadeira e inesgotável beatitude, que está em Deus.



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