Boécio - A consolação da filosofia - Livro III

Boécio escreve “A Consolação da Filosofia” em 524 d.C. quando está encarcerado, acusado de alta traição e prática de magia. O livro tem um caráter especial especialmente porque revela um itinerário espiritual seguido e sugerido pelo próprio autor para todos aqueles que aspiram a verdadeira felicidade. A obra é escrita em forma de diálogos, bem ao estilo de Platão, ricos em lirismo e com certo tom irônico, os interlocutores são o próprio Boécio e a Filosofia (Majestosa Mulher).
A temática central do livro é a aspiração do homem à felicidade e, ao indicar o caminho para ela, Boécio fala também sobre o livre-arbítrio e como a Providência Divina age sem feri-la. Apresenta Deus como Sumo Bem e fim último do homem.
O livro III é o coração da obra, começa justificando a aspiração natural do homem à felicidade a partir da afirmação de que todo homem realiza atividades que tendem a um fim, a felicidade. O problema está no fato de que constantemente, o homem, com os olhos presos em seus simulacros, confunde o que é tal felicidade. A partir disso, demonstra os falsos conceitos de felicidade que se apresentam ao homem como falsa fortuna: riqueza, poder, fama, glória, prazer etc.
O diálogo transcorre de tal forma a demonstrar como tudo isso não passa de bens aparentes, em uma certa relação com a ética aristotélica, pois todos os bens que a fortuna pode oferecer são fugazes e não podem trazer ao homem à felicidade que tanto almeja, são apenas manifestações dela, mas não ela em si mesma.
Boécio, conduzido pela Majestosa Senhora (filosofia), lança luz sobre um conceito de felicidade verdadeira que promete muito mais vantagens do que a imagem de felicidade peremptória pode oferecer, pois não está sujeita aos caprichos da fortuna, não pode ser dividida em partes, visto que ela se refere a uma única substância, ou seja, ao bem em si.
A Filosofia mais uma vez é o caminho que conduz a tal Felicidade, uma vez que ela é a sabedoria que ilumina o pensamento do homem ajudando-o a desprender-se da multiplicidade dos bens aparentes e limitados para contemplar o Divino.
Sobre o livre arbítrio, demonstra que quando o homem escolhe os bens aparentes deixa de agir de acordo com sua dignidade, contudo nunca é tarde para voltar para o verdadeiro bem, pois a experiência do mal reclama em si mesma o bem. Tanto o castigo do malfeitor, justa e proporcional punição pelo mal que é causado, quanto às provações as quais estão sujeitos os homens de bem, que acabam por fortalecê-lo, são demonstrações de como aquilo que é concebido como má fortuna também tende ao bem, demonstrando assim como a divina providência conduz o homem.
Na perspectiva da inteligência divina, a providência é a unidade da ordem temporal, compreende tudo que existe de uma só vez (passado, presente e futuro) como num eterno presente e assim governa o universo. Boécio apresenta o destino como encadeamento de causas, disposição inerente a tudo aquilo que pode se mover. Logo, cabe ao destino organizar na multiplicidade e temporalidade tudo o que foi fixado pela providencia divina. Assim nenhum fenômeno se dá sem que seja produzido acidentalmente ou por um encadeamento causas, mas nunca ao acaso.
O livre arbítrio, característica dos seres racionais serve para que eles possam efetivamente deliberar sobre os bens desejáveis e indesejáveis e o grau de liberdade estará mais ou menos desenvolvido naqueles que estiverem mais próximos da Inteligência divina, mediante a contemplação.
Resolve o problema do destino afirmando que todos os acontecimentos do passado e do futuro são previamente conhecido por Deus em seu eterno presente. Tudo se dá a partir de uma causa acidental ou como um efeito de uma necessidade absoluta. Da mesma forma que o presente não torna necessários os fatos que se realizam, o simples conhecimento do futuro não pode ser a causa dos fenômenos que acontecerão, ou seja, a presciência da Inteligência divina em nada limita o livre-arbítrio do homem.

Em todo o decurso do livro fica particularmente clara a escola filosófica frequentada por Boécio, com várias referências a Platão, no que se refere ao caráter inefável do ser divino e da sua absoluta bondade, do grande valor da alma e da sua respectiva imortalidade, e da inferioridade dos bens materiais em relação ao bens espirituais. Do estoicismo toma a concepção peremptória da fortuna e dos bens que ela procura. Como antes mencionei, sua concepção ética é eudaimônica (Aristotélica) e a sua concepção do tempo e do livre arbítrio tem forte influência de Sto. Agostinho, se bem que ele a desenvolve ou explica de forma mais detalhada.

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