Emmanuel Mounier - O Personalismo (I)

Aspectos biográficos.
Antes de mais nada, convém situarmos o autor historicamente a fim de que possamos compreender melhor a sua concepção filosófica, chamada por personalismo e que fez grandes discípulos ao longo do século XX, entre eles Karol Wojtyla.

Emmanuel Mounier nasceu na França em 1905 e lá morreu em 1950, tendo uma vida curta, podemos afirmar que o seu legado filosófico permanece. Sua primeira obra importante é também a sua tese doutoral sobre Charles Peguy, de quem recebeu grande influência, sobretudo no que se refere a concepção antropológica, como veremos a seguir. O autor recebeu também influência de pensadores como Maritain e Marcel, além de ter sido colega de Sartre. Uma de suas características curiosas, do ponto de vista histórico, é que optou por cultivar seu pensamento filosófico fora do ambiente universitário. Entre outros aspectos importantes de sua vida, podemos destacar que é o fundador da revista Espirit, que se torna grande instrumento de difusão da corrente personalista, a qual Mounier, juntamente com sua esposa, pode ser considerado propriamente como fundador. Outro detalhe importante que influência diretamente seu desenvolvimento filosófico foi a morte da filha, que particularmente o fez aprofundar sobre o sentido da dor. Eis suas principais obras: Révolution personnaliste et communautaire (1935), De la propriété capitaliste à la propriété humaine (1936), Manifeste au service du Personnalisme (1936), Introduction aux existentialismes (1946), Qu'est-ce que le personnalisme? (1947) e por fim, aquela que nos propomos a analisar neste resumo, Le personnalisme (1950).
Conteúdo da obra:
A obra foi escrita já no final da vida de Mounier, e representa já a maturidade do seu pensamento e podemos afirmar que apresenta uma visão antropológica do homem muito em consonância com a da tradição cristã, tais como: visão realista e metafísica do homem e do mundo, a pessoa humana é espiritual, livre a aberta ao mistério e à transcendência. Podemos afirmar também com segurança que o autor coloca a pessoa humana no centro da reflexão filosófica, porém não o fará na perspectiva existencialista, como o fizera Kierkegaard, Heidgger e Sartre, uma vez que analisa a pessoa humana com categorias filosóficas próprias, tais como, a centralidade do coração, em sua dimensão afetiva essencial ao lado da inteligência e da vontade, os valores morais e religiosos apresentam valor primordial, em relação àqueles meramente cognoscitivos.
Como podemos observar ao ler a obra, a pessoa humana somente se realiza enquanto tal na relação interpessoal, essencialmente diálogo, dom e comunhão. O homem não é analisado ingenuamente e nem mesmo numa concepção demasiadamente espiritualista[1], pois como o próprio autor afirma, o homem é um ser imerso na natureza, é um ser encarnado, por isso a obra apresenta uma visão específica sobre a corporeidade e sexualidade. “O Homem é um corpo, e ao mesmo título é espírito: é totalmente corpo e totalmente espírito.[2]
Mounier não foi um autor de escritório, antes disso, sua concepção filosófica é fruto da sua vida imersa na sociedade fruto de sua luta por transformar cultura e a sociedade em que vivia. O que apresenta propriamente uma coerência fantástica da sua vida com a sua filosofia, “Os meus estados de ânimo e as minhas idéias são condicionadas ao clima, à geografia, do ponto em que me encontro na superfície terrestre, dos traços hereditários, e indo ainda mais longe, talvez por um bombardeio denso que vem dos raios cósmicos.[3]
Lendo a primeira parte da obra podemos ainda afirmar que sua visão antropológica apresenta outra característica essencial, o homem possui uma característica intrínseca essencial: a liberdade, que o impele a agir de modo criativo, possuindo como vocação a humanização do mundo. O que faz que seja incoerente e insuficiente observá-lo a partir de um sistema fechado que tenha pretensão de ser onicompreensivo, como fizeram, em minha opinião, diversos outros filósofos, tais como Marx, Freud, Nietzche, Sartre para citar apenas alguns.
No próximo resumo tentarei, aprofundando na visão de homem do autor, analisar outros aspectos que me chamaram atenção na leitura da obra, tais como, dimensão ontológica da pessoa humana, a dinamicidade da pessoa humana e importância particular da vocação, incarnação e comunhão para a felicidade humana. E ainda a relação entre sociedade e comunidade, a vocação própria do personalismo como corrente filosófica e uma opinião pessoal sobre o autor.





[1] Cfr. MOUNIER, E., Il Personalismo. Editrice a.v.e., Roma, 4° ed., 1974, pag. 36. (Tradução pessoal)
[2] ibidem, pag. 29.
[3] Ibidem, pág. 30.
[4] Cfr. MOUNIER, E., Il Personalismo. Editrice a.v.e., Roma, 4° ed., 1974, pag. 72. (Tradução pessoal)
[5] Ibidem, págs. 83-84.

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