Heidegger - Que é Metafísica? (I)

 A obra é apresentada como aula inaugural de Heidegger na Univ. de Freiburg em 1929 e embora tenha sido feita após a composição de “Ser e Tempo”, pode ser vista, num estudo mais amplo, como uma verdadeira introdução a sua filosofia. Deve ser situada num contexto de novas perspectivas filosóficas, especialmente da Metafísica, que desde a crítica kantiana sofria uma verdadeira crise compartilhada também pelo positivismo. Vale ressalvar que o contexto filosófico do início do século XX apresenta uma evolução das ciências que exerceu forte influência na filosofia e consequentemente uma nova visão sobre o homem, sobre o pensar e sobre o mundo.
Heidegger foi discípulo de Husserl, tendo recebido dele a preocupação fenomenológica, porém afirma em certo momento que todas as ciências tem o mesmo valor, o que Husserl discordaria. É também fortemente influenciado pela religião cristã em perspectiva católica, embora por uma postura pessoal de confronto, desconhece voluntariamente Santo Tomás. Considerado autor existencialista, na esteira de Kierkegaard, pode-se dizer que seu grande problema e objeto de reflexão é o ser, a filosofia que busca as coisas em si mesmas ou, como dizia Aristóteles, aquela que busca as coisas primeiras. E não é só isso: no solo da arrancada grega para interpretar o ser formou-se um dogma que não apenas declara supérflua a questão sobre o sentido do ser, como lhe sanciona a falta. Pois se diz: “ser” é o conceito mais universal e mais vazio. Como tal, resiste a toda a tentativa de definição”.[1]
Voltando ao conteúdo de “Que é Metafísica”, vale ressalvar que a publicação de “Ser e Tempo” havia causado alguns mau-entendidos em grande parte de seus leitores, mesmo entre os mais cultos, de tal forma que foi acusado de niilista, de filósofo da angústia, de negar a racionalidade da lógica etc. Talvez justamente por isso, estando consciente de que o público daquela aula inaugural era formado em grande parte por cientistas e pessoas importantes para o pensamento da época, resolveu analisar a existência científica da época e justamente a partir de tal perspectiva responder a pergunta que é também o título da obra: Que é Metafísica? O que revela em grande parte sua sensibilidade e sagacidade em compreender o espírito de seu tempo.
O autor, no entanto, em uso retórico para despertar o interesse dos seus ouvintes afirma logo no início de seu colóquio, que não pretende definir o que é metafísica. A obra não é fácil à compreensão em uma primeira leitura e o prórprio autor indiretamente se vê obrigado a reconhecer isso, uma vez que 14 anos depois escreve um posfácio que orienta a leitura e ainda uma introdução escrita em 1949. Se a obra fosse clara em si mesma tudo isso seria dispensável.
A metafísica não é portanto somente o tema, como também o próprio proceder do pensamento, que se interroga metafisicamente. A obra traz ainda a tentativa do autor em definir o universo de atuação da atividade científica, sobre o qual afirma: Se quisermos apoderar-nos expressamente da existência científica, assim esclarecida, então devemos dizer: Aquilo para onde se dirige a referência ao mundo é o próprio ente – e nada mais. Aquilo de onde todo o comportamento recebe sua orientação é o próprio ente – e além dele nada. Aquilo com que a discussão investigadora acontece na irrupção é o próprio ente – e além dele nada.”[2] Conclui sua argumentação dizendo que a ciência rejeita o nada, o qual para ela não existe.
Posto isso, o filósofo propõe a reflexão sobre o desenvolvimento de uma interrogação metafísica, e segundo ele a própria pergunta conduz a resposta à metafísica, uma vez que tanto a pergunta como a existência do seu autor se movem no horizonte do que é questionado. A existência é pautada pela ciência, de forma que esta é o modo de estar no mundo em que o homem se relaciona com o ente, sendo o ente algo que “é” e não simplesmente “nada”. Logo, a ciência para delimitar seu objeto necessita aquilo que rejeita, a saber, o nada.
A reflexão sobre a pergunta metafísica desenvolve ainda a seguinte reflexão: o nada é a origem da negação do ente, pois o entendimento que sempre articula tanto a afirmação quanto a negação (isto “é” e isto “não é”) depende do nada, portanto não pode determiná-lo, por exemplo, quando alguém pergunta sobre o que uma coisa é, ela busca intrinsecamente por algo que lhe falta, no entanto o que falta somente é percebido a partir do que se apresenta, o que nos permite concluir que a negação do ente pressupõe a presença da totalidade do ente.
A totalidade do ente por sua vez, se dá, segundo o autor, como tédio, quando tudo é indiferente ou como alegria pela presença, quando tudo é pleno. O nada, portanto, se revela na angústia diante do nada, causando aquilo que para Kierkegaard seria a doença mortal (desespero humano), que revela propriamente o nada.
Nas páginas finais o autor explicará a resposta a interrogação metafísica na qual afirma que a angústia não apreende a totalidade do ente.




[1]Heidegger, Martin. O que é Metafísica. (Tradução Ernildo Stein). Versão digitalizada por grupo Acrópolis (filosofia). Site: http://br.egroups.com/group/acropolis/
[2]Ibidem.

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