Dogmas Marianos

INTRODUÇÃO

Toda a Mariologia parte de um princípio fundamental, que Maria é Mãe de Deus feito homem. É dessa proposição que vem todos os demais títulos de Nossa Senhora: a sua Imaculada Conceição, a Assunção corpórea e também sua virgindade perpétua.

Antes de aprofundar em cada um destes dogmas da nossa fé é necessário ter presente que eles salvam a fé do racionalismo e que devem ser entendidos na analogia da fé, sem deixar de lado as demais verdades cristãs, sobretudo que Jesus Nosso Senhor é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

1.       VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA


Consiste em afirmar que Maria é aeiparthénos, sempre virgem (no sentido físico). Essa verdade foi professada pela Igreja em 07/VIII/ 1555 pelo papa Paulo IV: “A bem-aventurada Virgem Maria foi verdadeira Mãe de Deus, e guardou sempre íntegra a virgindade, antes do parto, no parto e constantemente depois do parto” (DS nº 1880[993]).

1.1    Na Escritura

Os Evangelhos sempre afirmam que Maria concebeu Jesus sem a intervenção de José. Tenha-se em vista, por exemplo, o texto de Mt 1,18-20.
“Deu-se assim a concepção de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes, porém, da habitarem juntos, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo”.
Além dessa passagem encontram-se outra inúmeras, como se vê também claramente em Lc 1,26 e em outras que aparece implícita ou explicitamente (Mt 1,1-17;Lc 1,34 etc...)
No antigo testamento pode-se notar o famoso texto de Is 7,14, a apalavra hebraica ‘almah significa apenas jovem na flor de seus anos, sem alusão direta à virgindade, porém o mesmo termo é usado na Bíblia para designar uma donzela virgem (cf. Gn 24,43; Ex 2,8 ; Sl 68,26).
Além disso, S. Mateus citou a profecia de Isaias em sua forma grega dando-lhe interpretação cristã: a parthénos ou virgem é Maria e seu Filho Emanuel é o Cristo Jesus. Assim a própria Escritura explica a Escritura. Nesse texto também deve-se aplicar o “sensus plenior”.

1.2    Na Tradição e no Magistério da Igreja

Entre tantos textos pode-se citar o de S. Inácio de Antioquia (+110) “o Filho de Deus...verdadeiramente nasceu de uma virgem” (Aos Esmirnenses 1,1)
O magistério também sempre ensinou o mesmo como se vê, por exemplo, no credo niceno-constantinopolitano  “Encarnou-se de Maria Virgem, por obra do Espírito Santo”
Como antes foi citado, também o papa Paulo IV em 1555 professou que Maria é virgem, antes, durante e constantemente depois do parto.

1.3    Significado antropológico e escatológico da virgindade de Maria

Além de salvaguardar o mistério do Deus Homem, a virgindade perpétua de Maria também revela o valor da virgindade da alma e do corpo para Deus, superior inclusive à instituição do matrimônio.
A virgindade perpétua faz de Maria o símbolo vivo da ordem nova instaurada pelo Espírito Santo, o símbolo excelso do Reino de Deus e da existência escatológica, “pois na ressurreição, nem eles tomarão mulher, nem elas marido, serão como anjos no céu”
Certamente nem todos entendem esta linguagem senão aqueles a quem foi concedido[1].

2. MATERNIDADE DIVINA

2.1 Na Sagrada Escritura

A fonte para se afirmar que Maria é mãe de Deus no Antigo Testamento podem ser encontradas de forma velada no estudo das mulheres que antecedem Maria e a ela fazem referência, começando por Eva “mãe de todos os viventes”[2], e passando por Judite, Débora, Rute, Éster e muitas outras, Finalmente vários profetas falam simbolicamente de uma “Filha de Sião” que representa o mistério do povo de Israel nos três aspectos, Esposa, Mãe e Virgem, que se realizarão plenamente no mistério de Maria.
No Novo testamento a maternidade divina de Maria é afirmada implicitamente toda vez que dela fala como “Mãe de Jesus”, o qual declarou sem sombra de dúvidas como Deus.
O texto mais primitivo é o de Gálatas 4,4-5, o qual foi estudado neste curso em aula expositiva, no texto o apóstolo menciona Maria sem a nomear. De Jesus diz que foi “Nascido de mulher”. Marcos chama Jesus “Filho de Maria” e “Filho de Deus”[3].
Em Mateus e Lucas emprega-se a palavra Mãe tanto no relato da concepção como no Nascimento[4]; na Anuncuação a Maria o Anjo lhe diz: “conceberás e darás à luz um filho, a Quem porás o nome de Jesus”[5]
Além de todas esses indícios implícitos, o Novo Testamento da evidências explícitas no famoso texto de Lucas 1,31: “o Santo que nascerá de ti será chamado Filho de Deus”, e também o de Mateus que afirma que o filho de Maria será chamado de “Emmanuel...Deus conosco”[6].


2.2 Na Tradição

Julga-se que o título Theotókos, Mãe de Deus, aparece pela primeira vez na literatura Cristã nos escritos de Orígenes (+250) e foi solenemente proclamado pelo Concílio de Éfeso (431).

2.3 Significado da Maternidade Divina de Maria

Predestinada a ser mãe de Deus, Maria tinha também que ser predestinada a ser digna Mãe de Deus[7].
Na lógica divina era necessário que no coração de Maria houvesse um afeto que ultrapassasse o âmbito natural, em virtude da sua missão que também ultrapassava a de qualquer outra pessoa, dar a luz ao Filho de Deus, Salvador da humanidade.
Daí que Deus a cumulou do mais alto grau da Graça, a fim de que tivesse com o seu Filho os sentimentos próprios de uma mãe de Deus para um Filho de Deus.
Do mistério da plenitude da Graça em Maria têm-se salientado, entre outros, três aspectos:
a)         A total ausência de pecado e a perfeição de todas as virtudes na alma de Maria.[8]
b)        O que S. Tomás chama refluentia da graça da alma sobre a materialidade do corpo de Maria, que sempre de algum modo misterioso para nós – “introduzida” na vida íntima da Trindade.
c)         Como conseqüência do anterior, Maria é, de certo modo, fonte de Graça para os homens (em união, subordinada, por participação, de Cristo).

3. IMACULADA CONCEIÇÃO

Por ser Mãe de Deus, Maria recebeu de Deus graças muito singulares, entre elas a Imaculada Conceição. Para ser digna Mãe de Jesus, Ela foi isenta de todo pecado ou imaculada.

3.1 Solução das dificuldades teológicas

Uma das dificuldades levantada por alguns teólogos antes da declaração dogmática da Imaculada Conceição era a da universalidade da redenção operada por Cristo. Como explicar a que Maria não tinha pecado original e que tinha necessidade de ser redimida como todos os homens?
A resposta do magistério é clara: Maria não é uma criatura isenta de redenção, pelo contrário: é a primeira redimida por Cristo e o foi de um modo eminente em atenção aos méritos de Jesus Cristo Salvador do Gênero Humano.[9]
E daí lhe vem toda esta resplandecente santidade completamente singular com que foi “enriquecida desde o primeiro instante de sua concepção”[10].
A dificuldade acerca de como podia uma pessoa ser redimida sem ter contraído, ao menos por um instante, o pecado original, responde-se com a distinção entre “redenção liberativa” e “redenção preservativa”. A primeira é a que se aplica a todos nós com a “lavagem da regeneração batismal”. E esta última foi a que aconteceu em Maria ainda antes que pudesse incorrer em pecado.

3.2 Na Sagrada Escritura

Depois da queda de Adão, Deus fala à serpente: “porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua posteridade e a posteridade dela...”[11]Não poucos Santos Padres e Doutores aplicam esse texto a Virgem Maria.
Assim como da primeira Eva partiu a ruína do gênero humano, da nova surge a redenção, Cristo.
Os Padres, para isto, baseiam-se nas palavras do Anjo Gabriel que diz na Anunciação “em nome e por ordem de Deus” em tão singular e solene saudação, nunca ouvida até então: cheia de graça[12].
Contudo pode-se afirmar que na Escritura não há algum texto que fale explicitamente da Imaculada Conceição de Maria, o que não significa que isso não é verdade revelada. Sabe-se que foi crescendo aos poucos na Igreja a compreensão mais profundas dos dados implícitos na Escritura, é o que se chama “desdobramento homogêneo do dogma”.

3.3               Significado da Imaculada Conceição

Quando a Igreja define um dogma não obedece apenas a um capricho dogmatista, muito menos por uma razão meramente estética, Apesar de autoridade para tanto, a Igreja sempre fundamenta os dogmas na Sagrada Escritura, na Tradição apostólica, além disso não o faz sem levar em conta a piedade de seus fiéis, ou seja, a “sensus fidei”.
As razões mais claras que a Igreja encontrou para explicar o desígnio de Deus sobre o mistério da Imaculada Conceição são os seguintes:
1)         A Maternidade divina, Maria foi “dotada por Deus com dons à medida duma missão tão importante”[13] pois essa vocação, a qual não parece existir outra à altura, exige plenitude de graça divina e imunidade de qualquer pecado na alma, visto que trás consigo a maior dignidade e santidade, depois da de Cristo.
2)         O amor de Deus a sua mãe, convinha, Deus podia faze-lo e por isso fez[14].

4. ASSUNÇÃO

A assunção corporal de Maria é uma graça estritamente associada à Imaculada Conceição, da qual decorre logicamente.

4.1 Na Sagrada Escritura

Pio XII quis fundamentar a definição dogmática deste dogma sobre a Sagrada Escritura lida na Tradição dos Padres e teólogos da Igreja e o fez a partir das seguintes passagens:
- Gn 3,15, e situou Maria como Nova Eva, que acompanhou o Novo Adão em sua vitória sobre pecado e a morte. Em conseqüência disso também compartilhou do triunfo de Cristo sobre a morte, escapando da deterioração do sepulcro.
-          Lc 1,28: Maria é cheia de graça. Assim, a glorificação corporal de Maria, superando o poder da morte e é o coroamento da graça apregoada pelo anjo Gabriel.
-          Ap 12,1: A mulher revestida de sol representa o povo de Deus que gera o Messias e que tem a promessa da glória eterna; nesse povo Maria brilha como figura primacial que dá a luz o Messias e é gloriosa por Graça de Deus.
-          Entre outras como Ex 20,12; Lv 19,13 além de muitos textos litúrgicos.

4.2 No Magistério

A promulgação do dogma data de 1 de Novembro de 1950 por Pio XII através das seguintes palavras: “Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado: que a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, cumprindo o decurso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”[15].

4.3 Significado da Assunção de Maria

Maria exaltada na glória celeste é protótipo e representa desde já aquilo que tocará a cada cristão na consumação da história, desperta e aviva em cada filho a esperança, põe em relevo nítido o que é seguir o Cristo passo a passo na Terra até provar o cálice da morte com Ele.
A Assunção recorda também o poder de intercessão de Maria e convida cada fiel a um culto de petição.          
Além disso a Imaculada Conceição de Nossa Senhora é o ponto de convergência de várias verdades de fé. É a reafirmação da gratuidade da salvação dada por Deus e percorre de modo peculiar cada um dos artigos do credo católico.





[1] Cf. Mt 19,12.
[2] Cf. Gn 3,15.
[3] Cf. Mc 1,1; 12,6-8; 13, 22; 15,19.
[4] Cf. Mt 1 e Lc 2.
[5] Lc 1,31.
[6] Cf. Mt 1, 23.
[7] Cf. LG 56;
[8] Cf. LG 53.
[9] InD, DS 2803; LG 53.
[10] LG 53,56.
[11] Gn 3,15.
[12] Lc 1,28.
[13] LG 56.
[14] Cf. Duns Escoto, In III Sententiarum, dist. III, q 1.
[15] MS, DS 3900-3904.

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