Resumo Final - Lendo os filósofos medievais

Trabalho de conclusão do curso

Introdução
Ao longo do semestre tivemos a oportunidade de conhecer alguns dos principais representantes da filosofia medieval cristã (S. Agostinho, Boécio, S. Anselmo, S. Boaventura, Sto Tomas de Aquino) e, lendo seus textos mais relevantes, aprofundamos a reflexão a respeito das relações entre fé e razão, tão importantes no diálogo com a cultura propostas pelo Concilio Vaticano II e para a compreensão dos problemas existenciais hodiernos, na minha opinião, decorrentes do abandono da Metafísica e consequente renúncia a Verdade absoluta (relativismo). Dentre os diversos temas tratados ao longo do nosso curso gostaria de destacar aquilo, que dentro da minha reflexão pessoal e pequena experiência sacerdotal como formador de consciências, me parecem mais relevantes.

1.     Liberdade, livre arbítrio, o problema do mal e da felicidade em S. Agostinho. (De libero Arbitrii, livro II) - O santo de Hipona apresenta a liberdade como criação de Deus e meio fundamental para a felicidade suprema do homem e dos seres capazes dela. O livre arbítrio é apresentado como um desdobramento da liberdade, que embora permita abusar dela na escolha do mal, em si mesmo consiste num bem, na medida em que é também uma criação de Deus, fonte de todo bem o do qual não pode advir nenhum mal. Analogamente, o mau uso dos seres corporais não impedem que os corpos sejam um bem em si mesmos, logo o livre arbítrio, ainda que possa ser usado para o mal permanece sendo um bem. Nessa perspectiva o autor resolve também o problema do mal moral, que consiste numa inversão de bens, no qual o homem deixa de escolher o Bem Supremo, Deus, por um bem inferior, o que S. Agostinho afirma ser uma aversão a Deus, para uma conversão a criatura (Conversio ad creaturam et adversio Deo). A felicidade consistiria, portanto, na posse plena da Verdade Suprema e Absoluta, que em última instância é o próprio Deus. Tal posse começa neste mundo de forma parcial e será plenificada na vida eterna, porém quanto maior o grau de liberdade, maior a "posse da felicidade" oriunda de Deus.

2.     A Providência, o livre arbítrio, o acaso e o destino em Boécio[1] - A Providência é apresentada como "aquele plano divino, existente na mente do Senhor do mundo, que tudo ordena."[2] O destino, como encadeamento de causas ou ainda como disposição a tudo aquilo que pode se mover, cabendo a ele organizar na multiplicidade tudo aquilo que foi fixado pela Providência, regra multiforme com que Deus governa o universo e que comporta uma unidade da ordem variável do destino. Assim, nenhum fenômeno se dá sem que seja produzido acidentalmente ou por um encadeamento inevitável de causas, pois do nada, nada provém. Logo, o acaso seria um fenômeno inesperado, cujas causas resultam de circunstâncias fixadas pela Providencia e não da ação intencional do homem.
O livre arbítrio, característica dos seres racionais, como em S. Agostinho, serve para que efetivamente possam deliberar sobre os bens desejáveis e indesejáveis ao plano da salvação, e o grau de liberdade estará, mais ou menos desenvolvidos naqueles que estiverem mais próximos da Inteligência Divina mediante a contemplação. Assim Boécio resolve o problema da relação entre livre arbítrio e destino. A solução, portanto, consiste em que Deus não está sujeito ao tempo e abarca a totalidade do ser num agora único, atemporal e simultâneo e nisso consiste sua eternidade, sendo o momento humano apenas uma fraca imagem daquele eterno e atemporal agora. Portanto a devida compreensão advém da distinção entre a pura eternidade de Deus (aeternum) e uma eternidade no sentido de um fluxo indefinido do tempo (perpetuum), que poderia convir ao mundo. Por isso não há para Deus, nenhuma pré-vidência, tudo que para o homem é futuro, para Deus é presente em sua eternidade, logo o homem não pode "enganar" a Providência, uma vez que tudo é conhecido por Deus atemporalmente, e o que é planejado por ele, se encontra já realizado no conhecimento de Deus.

3.   Prova racional da existência de Deus em S. Anselmo[3] e em S. Boaventura[4]S. Anselmo apresenta a Obra como "Exemplo de Meditação Sobre as Razões da Fé", para racionalmente demostrar a existência de Deus, "ser do qual não é possível pensar nada maior"[5]. Para tanto, serve-se do conceito de participação de Platão, bem como da observação atenta da realidade, na qual se dá as diferentes escalas de perfeição dos entes. Em outras palavras, o fundamento da existência das coisas (ser per aliud) está necessariamente na existência da Suprema Natureza (ser per se), caso contrário, o devir das coisas seria contraditório. O chamado "argumento ontológico", possui três fundamentos: a) uma noção de Deus fornecida pela fé; b) a convicção de que existir no pensamento já é verdadeiramente existir; c) a concepção de que a existência da ideia de Deus no pensamento exija também sua existência real. Nessa perspectiva se conclui que Deus é Ser Supremo e plenamente sabedoria, verdade, potência, e beatitude e tais atributos não pertencem a Ele simplesmente como qualidades exteriores agregadas à sua Essência e sim idênticas a ela, pois Deus não participa de nada, uma vez que é por si mesmo tudo aquilo que é, e tudo aquilo que possui ser, somente o possui na medida em que participa do seu Ser.
Tal exposição foi fortemente criticada na filosofia posterior por não explicar perfeitamente a passagem da ordem ideal para a real, mas foi, de certa forma, complementada por S. Boaventura. O santo franciscano não parte de uma ideia de Deus constituída sobre a mente humana, mas de uma ideia que se impõe à mente humana, uma presença real que faz o homem pensá-Lo. Na sua argumentação nao se infere uma realidade a partir de uma ideia, e sim se descobre uma realidade que está sob e se revela através de uma ideia. Como bem afirma E. Gilson, “S. Boaventura notou muito bem que a necessidade do ser de Deus ‘quoad se’ (considerado em si mesmo) é a única razão suficiente de sua existência ‘quoad nos‘ (considerado em relação a nós)."[6] Sua teoria da iluminação explica que a certeza de Deus é uma irradiação do seu Ser Divino sobre o nosso pensamento.

4.   A Verdade em Sto Tomás de Aquino (De Vertitate q.1-5) - Filósofos de todos os tempos abordaram em algum momento a questão da Verdade e o Santo Doutor, considerado o maior filósofo e teólogo cristão, não poderia ser diferente. Ele a apresenta "como uma certa adequação entre a inteligência e coisa". Daí se conclui que sua definição primeiramente pressupõe uma relação, ou seja, a verdade não é algo isolado dentro da ordem das coisas que são, e tal relação tem vários modos e várias características que podemos postular. A explicação tomista, nos permite afirmar, que sua filosofia é realista, isto é, pressupõe a realidade dos entes. Assim, a verdade está primeiramente nas coisas como fonte, daí não poder dizer que há falsidade nas coisas, a falsidade estaria, portanto, no intelecto, que pode julgar. O segundo pressuposto é que a verdade se dá formalmente na inteligência, ou seja, conhecer algo tem sempre um caráter de intencionalidade. A exposição do aquinate concorda e aprimora aquela de S. Agostinho, quando afirma que "A Verdade é o meio pelo qual se manifesta aquilo que é". Assim, a verdade deve estar nas coisas e no intelecto e ambas convergem juntas com o ser. O "não-ser" não pode ser verdade até que a inteligência humana o torne conhecido, ou seja, quando for apreendido através da razão. Portanto, somente se pode conhecer a verdade quando se conhece o que é o ser.

5.   A verdadeira vocação do filósofo - As diversas leituras e reflexões em aula trazem como pano de fundo a verdadeira vocação do filósofo, e a que me pareceu mais precisa é aquela de Sto Tomas de Aquino "(…) os sábios são aqueles que diretamente ordenam as coisas, por isso entre outras funções que os homens os atribuem, a de que pertence a ele ordenar é a proposta pelo filósofo".[7] A definição do ofício do sábio tem força por si mesma na agudez típica da exposição racional e coerente daquele que encarnou na própria vida tal vocação. Boécio apresenta ainda a Filosofia como um itinerário espiritual para todos aqueles que aspiram a felicidade verdadeira. O fato é que a aspiração à felicidade é inerente ao homem em todos os tempos e contextos e é justamente nessa linha que o filósofo adquire papel relevante contribuindo para que os homens de boa vontade possam caminhar ao encontro da posse dessa Verdade Absoluta e Suprema.

Conclusão
O diálogo entre Fé e Razão, tão presentes na reflexão filosófica cristã de todos os tempos e especialmente no magistério recente da Igreja pode ser feito de diversas formas como nos ficou claro em nosso plano de leituras. Não importando se a reflexão parte da Sagrada Escritura como o faz S. Agostinho e S. Boaventura ou se partam simplesmente da razão e a ela façam referência como ponto de chegada, como em Boécio e S. Anselmo.
A filosofia, quando bem orientada, não apresenta riscos a fé, antes “são como duas asas que se elevam para o céu”.[8] A filosofia pode ser ainda um imprescindível instrumento de apologética cristã, mostrando como se deve afrontar as questões essenciais da existência humana e outras religiões pelo confronto inteligente das ideias mais do que pela luta violenta das armas, como insistentemente afirma o papa Bento XVI. O mais importante de tudo é ficar claro o quanto a razão humana é um atributo dado por Deus a fim de que o homem possa chegar a Ele, e assim dar o assentimento do coração e da vontade.



[1] Consolatio Philosophiae, Liv. III
[2] Boécio, Consolatio Philosophiae, V,6.
[3] Menologion, cc. 1-14.
[4] Itinerarium, cc.1-7;
[5] S. Anselmo, Menologiom, cap. I.
[6] Cfr. E. Gilson, L’Espirit de la Philosophie Médievale, libr. Philosophique J. Vrin, Paris, 1948, p. 60.
[7] Summa Contra Gentiles, liv. I, 1.
[8] João Paulo II, Fides et Ratio, Carta Encíclica, 1998.

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