II. 2. A pergunta ética a respeito do bem humano


A tese que desejamos ilustrar nesta primeira parte da aula de hoje, é que a pessoa humana coloca em jogo uma concepção do bem humano precisamente enquanto é um sujeito moral.
  
     Por trás da afirmação anterior está a tese fundamental de que, independente da concepção filosófica geral que se considere mais adequada, não é possível alcançar uma compreensão última do agir deliberado a partir de uma perspectiva que seja diversa.


1. A ação deliberada pressupõe a escolha de um fim último (intenção)
    ou de um “projeto de vida”; o agir moral e identidade pessoal

     Desde o inicio da reflexão filosófica, na Grécia Antiga, esta presente uma teoria da ação na qual constatamos que o agir humano deliberado (livre) direciona-se sempre a um fim último ou bem supremo e esse é o primeiro ponto de vista que vamos considerar.
  
     Já nos referimos nas aulas anteriores às frases retiradas da Ética a Nicômaco, que mostram que o desejo e ação têm correlação entre o bem desejado (verdadeiro ou aparente) e o fi.  Não há desejo nem tendência sem estar direcionado a um fim ou bem, quando se deseja algo, sempre há um fim ao qual este desejo aponta.

      A alegria e a tristeza têm certo conteúdo, pois a ação livre e voluntária contém um bem, pois nunca há uma ação deliberada vazia. Assim tendências, sentimentos e ações estão submetidos à lei da intencionalidade.

    Essa afirmação implica considerar que, do ponto de vista do sujeito, falar do fim último significa as tendências e ações livres do homem é, em última instância, sempre unitário, por mais que contenha impulsos que pareçam se contradizer, e que o conjunto de ações formam uma vida, uma totalidade unitária em sentido biográfico, na qual é possível sempre começar, recomeçar, mudar de rumo e seguir em frente.

     Fim último ou bem perfeito significa, portanto, o objeto último do desejo.
     
    Mas poderia surgir uma pergunta: O que nos permite dizer que o agir humano deliberado pressupõe um fim ou bem?

    A resposta se apóia na observação de que as ações humanas se estruturam numa seqüência mais ou menos unitárias nas quais umas ações se ordenam sempre a outras.

    A esta reflexão já proposta por Aristóteles pode-se objetar, no entanto, que a experiência pode sugerir que o homem não age sempre visando um único fim ou bem supremo e sim que existe, na vida humana, vários aspectos e setores cada um com sua própria finalidade.

    Assim, as várias atividades realizadas por um seminarista, por exemplo, seus estudos, sua vida de piedade, seu relacionamento familiar, seu lazer, cada uma delas teriam uma finalidade específica. Mas isso não explicaria o sentido último e cabal da vida desse seminarista, pois cada ação que realiza, independente do âmbito a qual se refere, não é independente, absolutamente, dos outros setores, afinal ele é seminarista enquanto estuda, enquanto reza, enquanto descansa, enquanto está com seus familiares e este fato determina fundamentalmente como age em cada situação.

    Por isso não se pode compreender, por exemplo, a vida de um santo, sem levar em consideração a motivação pela qual realiza bem cada ação.

     (exemplo da atual abordagem a respeito da morte de Zilda Arns em 2010, que leva em consideração apenas o aspecto social de suas atitudes sem levar em consideração sua motivação religiosa)

    Se os fins de cada atividade fossem verdadeiramente fins últimos, seriam fins não articuláveis diante de uma totalidade que os engloba. Assim nunca poderíamos entender a biografia de uma pessoa numa perspectiva ampla e global. Como entender, por exemplo, atitudes contraditórias entre si em uma vida inteira. Como entender que num momento da minha vida decido namorar e noutro decido livremente entregar-me inteiramente a Deus? Num momento trabalho para adquirir riquezas e noutro deixo tudo e não ter “nada”?

     Sem muitas especulações, nos parece óbvio que as diferentes decisões que tomamos ao longo de nossa vida, acertadas ou não, só podem ser classificadas a partir de uma perspectiva que abarque toda a nossa existência.

2. O fim último e o “ponto de vista moral”

Para compreender esse tópico nos atenhamos a seguinte classificação:

a) A consideração da totalidade da vida se pode entender primeiramente com relação a sua extensão temporal. Por isso mesmo só conseguimos projetar nosso futuro tendo presente as circunstancias da nossa vida passada e atual. Posso projetar que serei sacerdote se hoje e ao longo da minha vida direcionei-me para tal opção.

b) A noção de fim último está estreitamente ligada à consideração da própria vida como um todo.
  
c) A consideração da própria vida em sua totalidade não é maior do que o ponto de vista próprio da moral, como vimos no capitulo I. Assim a perspectiva de totalidade distingue a razão moral da razão técnica ou instrumental. Logo as motivações pelas quais escolho ou não uma ação não podem ser desvinculadas da ação escolhida e dos meios eleitos para realizá-la. Por isso uma ação só pode ser classificada eticamente a partir das motivações e meios livremente escolhidos.


3. Insuficiência do recurso da norma ou do dever: o governo da ação pressupõe o governo da própria vida

    Não se pode recorrer apenas a normas ou deveres externos para justificar a conduta humana, pois assim a Ética se limitaria a um conjunto de regras, limites e proibições a serviço de um objetivo, que, por mais nobre que fossem, seriam sempre parciais, limitando, assim, a liberdade humana. A afirmação é verdadeira porque o homem nunca é um “robozinho” programado e pode sempre eleger suas ações segundo o fim que escolheu para direcioná-las
  
     Assim tanto a motivação, quanto a fundamentação e o governo das ações, de um ponto de vista mais amplo, pressupõe, fundamenta e se justifica no contexto do governo da própria vida.

    Por isso que apesar de ter fome, posso escolher não comer em determinado momento, mesmo sendo bom o matrimônio posso escolher não contraí-lo etc.
    Uma norma não deve ser cumprida apenas por ser boa e por melhor que seja nunca abarca todos os seres humanos na busca da felicidade. Deve, portanto, haver sempre uma relação estreita entre lei e liberdade de modo que uma não restrinja ou anule a outra.


4. Fim último e felicidade

     Agora refletiremos, em nossa visão ética, como se introduz o conceito de felicidade, sobre o qual tanto se discute em reflexões éticas atuais.
  
     Quase todos admitem que felicidade é viver bem ou agir bem durante a própria vida. Mas o que é esse bem? A tal pergunta respondem diferentemente o sábio e o inteligente, o santo e o orgulhoso, o sensato e o voluntarista. Uns crêem que a felicidade está na satisfação dos desejos sensíveis outros vão mais além.

     O estado da questão (status quo) é o seguinte: por um lado uma perspectiva bem definida nos conduz à noção filosófica do fim último e por outro lado esta perspectiva se encontra com a aspiração natural à felicidade. A união da noção de fim último e da aspiração natural à felicidade é, portanto, extremamente importante e, ao mesmo tempo, problemática para a Ética. Mas por quê?

     A aspiração à felicidade é a expressão psicológica e fenomenológica da estrutura finalista natural do agir humano, cuja elaboração filosófica nos conduziu a noção de fim último.

    Isso significa afirmar que ao escolhermos uma determinada ação ou quando damos um determinado rumo a nossa vida estamos dando conteúdo à nossa felicidade. Nunca escolhemos algo desejando a infelicidade.

    No plano da elaboração filosófica antropológica, no entanto, a noção de felicidade é vaga e problemática e não ocupa o primeiro lugar, pois cada um a concebe a seu modo.

    Como anteriormente refletimos, existem aqueles que concebem a felicidade como ausência de dor, física ou mesmo espiritual, e outros que a aceitam e até mesmo a desejam.

    A investigação filosófica sobre o fim último ou global do homem deverá afrontar, então, o problema da felicidade humana, mas a felicidade não é a resposta final e sim o início de uma reflexão direcionada a determinar racionalmente qual é ou em que consiste a verdadeira felicidade.

    Logo a felicidade não é um conceito pré-filosófico sobre o qual toda reflexão deveria estabelecer normas para alcançá-la, não é uma realidade extra-ética.


5. Fim último, felicidade e racionalidade

     Se uma pessoa tem fome, passa diretamente a ação de comer. Se tem frio se por a aquecer-se. Se tem calor, busca refrescar-se. Se está descontente com a vida pode refletir sobre um novo direcionamento global para ela.

  Enquanto a satisfação das necessidades sensíveis indicam tendências particulares facilmente conhecidas, o descontentamento com o sentido da própria vida, não assinala no entanto, meramente uma frustração de tendências particulares e sim a insatisfação da aspiração natural à felicidade a qual todo homem está sujeito.

    O fato de que este descontentamento remeta a uma reflexão racional manifesta simplesmente que a aspiração a felicidade está intimamente ligada à vontade.

     Logo, os seres irracionais podem sofrer, ser agressivos, ter fome e sede, mas nunca podem ser infelizes.

     Portanto, então o que nos perguntamos não é se existe e e se existe qual é, uma vida rica de prazeres e isenta de dor e sim sobre o que é razoável querer como fim último ou bem perfeito.


6. Fim último, ética pessoal e virtude

     Do que acabamos de refletir, deriva o fato de que a investigação ética acerca do fim último não se reduz apenas a definir que a conduta humana pressupõe uma idéia sobre o conteúdo concreto da felicidade. Antes, a Ética quer determinar o que é razoável buscar como fim último e sobre elaborar normas praticas para alcançá-la, como estabelecer juízos de valor sobre os diversos projetos de vida que os homens definem para si mesmos.

     A reflexão ética, portanto, não pretende estabelecer em geral o que cada um dos homens deve fazer, a atividade profissional que deve escolher, o modo concreto de descansar e sim determinar certas modalidades gerais que devem ser observadas na eleição e escolha das diversas atividades que realiza e como deve regular o uso de certos bens humanos.

    Estas modalidades gerais, de caráter normativo, receberam na filosofia grega antiga o nome de virtudes.

    A investigação filosófica acerca do conteúdo do fim ultimo ou da felicidade fez com ela estabelecesse uma teoria das virtudes.

    Se não se admite a possibilidade de elaborar uma concepção normativa do bem global da vida humana, a Ética se reduz a ser apenas social e interpessoal, e a ética pessoal é abandonada.

      Se não se quer admitir que os critérios que cada um governa sua vida pessoal ou privada são opções irracionais- o que aparentemente ninguém quer fazer – há que considerar que as opções escolhidas pelo homem se fundamentam em razoes boas. Então não há motivo para afirmar que a Ética não pode ou não deve refletir criticamente sobre o valor das ações e intenções humanas.

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