Retiro das Filhas de Maria

RETIRO ESPIRITUAL PARA AS FILHAS DE MARIA

“Cum Petrus, ad Iesum, per Mariam” (s. Josemaría)

A sós com Deus

“Finalmente a sós com Deus”. Essas palavras devem, certamente nortear esse dia de retiro. São Thomas More, após ficar cativo nas torres inglesas assim exprimia sua alegria, por poder estar finalmente unicamente na presença do seu Pai-Deus.

Portanto, como esse santo, esse dia deve ser para cada filha de Maria, uma pausa restauradora na caminhada de fé e de conversão. Que desse dia se aproveite para fazer muito exame, formular propósitos e enfim, dialogar muito com o Senhor, sobretudo ouvi-lo, pois esta é a finalidade desse dia de retiro.

Que o silêncio seja fecundo, não meramente passivo, mas muito ativo, e que a alma não cesse de falar muito a Deus e deixar que Ele responda e peça amando.

Mistério de Cristo, “mistério” do homem.

“A simples oração do Rosário marca o rítimo da vida humana(...) Quem contempla Cristo, percorrendo as etapas de sua vida, não pode deixar de aprender dele a verdade sobre o homem” . (João Paulo II, Rosário da Virgem Maria, carta apostólica)

O roteiro desse dia de recolhimento espiritual será o Rosário, tantas vezes rezado pela filha de Maria. E meditando pausadamente seus mistérios retirar-se-á dele, novas luzes para a caminhada de fé esperança e caridade. A ordem dos mistérios é muito importante, ainda que os acontecimentos da vida nem sempre sejam lineares.

Não se pode compreender a ação do Espírito Santo numa alma, como por exemplo se pode detectar a ação de um energético ou uma vitamina no corpo humano, nesta se pode verificar eficazmente quando foi e como foi a ação em cada célula humana. No entanto “o vento sopra onde quer e ouves seu ruído, mas não sabe de onde vem nem aonde vai” (Jo 3,8)

Isso é pura verdade, contudo, uma coisa se pode dizer com segurança, que a maneira do Espírito Santo agir em cada alma faz crescer a fé, a esperança e no amor. Analisando a existência humana, pode-se compreender facilmente que as efusões do Espírito Santo ocorre na vida Cristã em mistérios de alegria, dor, glória e Luz.

Para percorrer esse caminho iremos na companhia do primeiro papa, que passou por todas as efusões do Amor.

Mistérios Gozozos

Estamos agora diante de um dos tipos de efusão do Amor em nossa alma, as que revelam e iluminam, a fim de fazer crescer em nós a fé

A primeira efusão do Amor na vida de Pedro corresponde, certamente, ao momento da sua vocação, quando estando nas suas ocupações de ofício foi escolhido por Jesus.

Pedro ficou entusiasmado, foi conquistado por aquele profeta da galiléia, pressente que suas palavras irão mudar o seu destino e talvez o de toda Judéia e por que não dizer de todos os homens?

Pressente, também, que ao corresponder àquele “vem e segue-me” sua vida estaria destinada a tomar um rumo novo, seria totalmente consagrada a partir de um projeto extra-ordinário.

O Espírito Santo revelou a Pedro não somente Jesus, como também o novo sentido da sua própria existência, gerando nele uma alegria e felicidade imensas. É o começo de uma nova vida, a qual Pedro se entrega inteiramente, sem reservas.

Na nossa vida não foi nem um pouco diferente, certamente num momento da nossa vida , em meio aos nossos afazeres comuns, ou talvez mesmo em meio a uma atividade na Igreja, deparamo-nos com Cristo, ou seja, encontramo-nos com Ele.

De alguma forma Ele nos chamou, seja através de alguém que pregava, de uma música que tocava, ou de alguém que veio ao nosso encontro.

Esse encontro pessoal com Cristo foi tão marcante na nossa vida, que certamente poderíamos dividir nossa vida em uma antes e um depois. Vislumbramos uma nova pessoa que nascia em nós, enxergamos horizontes que até então pareciam inexistentes ou intransponíveis, enfim, passamos de uma vida natural à vida sobrenatural.

Aproveitemos os próximos momentos de silêncio, para relembrarmos esse dia da nossa vida. E façamos tal esforço que possamos sentir novamente aquela alegria que contagiou a nossa existência, e que nos fizeram descobrir tantas maravilhas.

Permitamos que o Espírito Santo nos faça reviver esse nosso momento, que como a Pedro, também mudou o rumo da nossa história

“Que esse recolhimento não se perturbe pelo ruído de palavras quando meditares as considerações que te proponho: (...) pois perderiam a intimidade” (cf. s. Josemaría)

Peça agora a Nossa Mãe Santíssima, Virgem do Silêncio, que o coloque uns instantes em seus braços, no lugar de Jesus, para que revivas com fervor aqueles momentos que mudaram nossa história, que, numa palavra, fez nascer em nós a fé.

Mistérios da dor

Poderíamos dar o nome dessa meditação de lágrimas de Pedro e dom da Esperança. Esses mistérios encerram também, mais uma forma de efusão do Espírito Santo em nossa vida, a que despoja e empobrece.

O Espírito santo certamente nos enriquece com essas alegrias que acabamos de meditar. Mas, da mesma forma, é também Ele que nos empobrece. Não é somente que aquele que dilata os horizontes da nossa existência, mas também aquele que nos faz passar por maus bocados e por portas bem estreitas.

É o que agora meditamos: o momento mais terrível da vida de Pedro, a traição. Pedro o negou numa situação ínfima, em relação a tudo o que já tinha feito por Jesus.

Já o havia anunciado, já o havia defendido perante autoridades, havia até mesmo cortado a orelha de um romano que o havia ameaçado. E de repente, diante de uns desconhecidos quaisquer, o nega três vezes.

Esse momento mais doloroso da vida de Pedro o faz chorar amargamente, talvez relembrando a noite anterior, a qual tinha participado da instituição da Eucaristia, ceia na qual Jesus lavou seus pés, na qual ouviu da boca do próprio Cristo “desejei ardentemente celebrar essa Páscoa convosco” (jmjkk), talvez o seu choro tenha se tornado ainda mais contrito quando se lembrou do que disse “Darei a minha vida por Ti” (Jo 13,38).

Que queda! De primeiro que era, tornou-se um desconhecido. Mas como antes foi dito, o Espírito Santo é também aquele que nos empobrece.

As suas lágrimas, são também lágrimas que purificam. Benditas são as lágrimas, que lavam alma e coração, que curam as feridas e levam a libertação.

Certamente já percorremos o mesmo caminho de Pedro em nossa própria vida. Pedro ao pecar se afasta de Deus. o mesmo Deus que estava no mesmo recinto que Ele, parecia agora distante, desconhecido!

Talvez estejamos nos sentindo assim, afastados de Deus, privados dos seus gozos espirituais e dos seus consolos. Mas não esqueçamos das efusões da dor.

Pedro viveu certamente, nessa hora, uma das suas efusões do Espírito Santo e foi pelas lágrimas, pela ausência, pela angústia, pela contrição, pela amargura, mesmo pela tristeza.

Talvez o Amor queira que nós também passemos por essa efusão, que se por um lado traz muita dor, por outro amadurece o amor, faz-noz humildes pela consciência da nossa fraqueza, e produz a esperança de voltar a ver e estar com o Senhor.

Esta experiência de Pedro tem um ensinamento fundamental para a nossa vida: quando se é rico, conta-se com as próprias riquezas e não se tem como ter esperança verdadeira.

Para se ter verdadeira esperança é necessário passar pela pobreza radical, um empobrecimento que é fonte de alegria “Félizes os pobres de espírito- os que foram despojados pelo Espírito Santo, poderíamos dizer – porque deles é o reino dos Céus” (Mt 5,3).

Desse caminho de empobrecimento não escapou nem a mais rica de todas as mulheres da Terra, que se por um lado não tinha pecado, por outro não pode em nenhum momento nesta vida, utilizar-se de seus privilégio de Mãe de Deus, a não ser em favor do mesmos pecadores que crucificaram o seu Filho.

Recorramos a Nossa Senhora da Esperança e no seu colo continuemos a ouvir o que Deus nos mostra e aprendamos dela, a acolher toda a dor que o Espírito Santo permitir em nossa alma afim de purificar-nos.

Mistérios da Glória

Continuando o nosso percurso do Rosário da nossa vida em companhia de Pedro, poderíamos considerar que a terceira efusão do Espírito Santo na vida do primeiro papa se deu certamente me Pentecostes.

É a efusão que confirma e fortifica é a terceira nessa ordem do rosário. Esta, que por sua vez, permitirá contemplar a Luz de Cristo ainda nesta vida.

No cenáculo Pedro recebe, com os outros apóstolos, a força do alto (cf. At 1, 8). Uma força capaz de nortear toda a sua vida, de torná-lo incansável apóstolo e defensor da fé, capaz de fazer com que tenha uma morte ainda pior que a do Senhor, capaz de fazê-lo se alegrar em ser perseguido por causa do nome de Cristo.

São João da Cruz nos conta uma imagem que certamente nos ilumina muito na compreensão de como se dá esses mistérios da Efusão do Espírito Santo em nossa alma.

“Quando o fogo se aproxima da lenha, começa por iluminá-la, dar-lhe brilho, aquecê-la. São os mistérios gozozos. Somos iluminados e aquecidos pelo amor divino que se revela em nós.

“Quando o fogo aproxima-se ainda mais, efeitos aparentemente inversos se produzem em um primeiro momento: a madeira em contato com a chama começa a escurecer, fumaçar, exalar odor desagradável, emitir açafrão e outras substâncias de odor e de aspectos asquerosos. Ë a efusão dolorosa: penetra mais profundamente pela ação da implacável luz divina e a alma faz a profunda e dolorosa experiência de sua miséria. De seu pecado e impureza radical.”

“Esta fase dura tanto quanto necessário até que o fogo purificador tenha completado sua obra e a alma seja inteiramente iluminada e abrasada, transformada em fogo de amor como a madeira que, agora inteiramente incendiada tornou-se ela mesma fogo. É a efusão gloriosa, na qual a alma é fortificada na caridade, este fogo que Jesus veio acender sobre a Terra.”

O grande ensinamento desse retiro é certamente de muito otimismo, que não devemos desistir nem temer, afinal a Escritura Santa traz tantas vezes a Frase, “Não temas”, fiquemos por exemplo com o “Não Temas” do anjo Gabriel a Maria. (Cf. Lc, 1,30).

Não podemos temer esses momentos nos quais a experiência da nossa miséria parece nos anular, ou a aridez espiritual nos faz sentirmo-nos uma pedra de gelo.

Importa não nos desesperar, mas continuar nos entregando a Deus confiantemente, certos de que cedo ou tarde isto se tornará caridade ardente, como foi outrora a Pedro.

Continuemos perseverante nesta constante contemplação de Cristo por Maria, sempre.
“Todos o dias Lhes havemos de prestar um novo serviço. Ouviremos suas conversas de família. Veremos crescer o Messias. Admiraremos os seus trinta anos de obscuridade... assistiremos à sua Paixão e Morte... Pasmaremos ante a glória da sua Ressurreição... Numa palavra: contemplaremos, loucos de Amor – não há outro amor além do Amor -. Todos e cada um dos instantes de cristo Jesus.”

Retiro pregado para filhas de Maria em 2006 e 2009

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