Kierkegaard - Doença até a morte (II)



        Continuando nossa reflexão a respeito da obra acima citada, nas páginas seguintes Kierkegaard procurará responder as seguintes questões: como se dá a aprendizagem que constitui o cristão? O que exatamente faz com que o verdadeiro cristão aprenda o que é o desespero humano (doença mortal), mas não seja sucumbido por ele?
Antes de responder a essas perguntas, o autor demonstra como o desespero acomete todo ser humano, pois da mesma forma que os médicos afirmam que ninguém é totalmente pleno de saúde, ninguém é isento também de alguma forma de desespero. Antes de mais nada, fica evidente que este desespero referido na obra, é uma característica espiritual. Ao mesmo tempo, o conceito de dialética está fortemente ligado àquilo que é o desespero, pois “O desespero não é apenas uma dialética outra que uma doença, mas até os seus sintomas todos são dialéticos e é por isso que o vulgo corre o risco de se enganar quando considera alguém como sendo, ou não, um desesperado.[1]
Quando o homem ignora a própria situação espiritual é também e talvez a pior forma de desespero, nessa perspectiva é vislumbramos a resposta à primeira pergunta acima, pois o cristão autêntico não ignora sua situação espiritual, uma vez que o “desespero é precisamente a inconsciência em que os homens estão do seu destino espiritual[2], assim o cristão pode ser acometido pelo desespero, no entanto sem ser sucumbido por ele, na mesma medida em que é consciente da própria situação espiritual e de seu destino eterno.
A saída, portanto, para não ser sucumbido em tal desespero seria ajustar a própria vida de acordo com aquele que lhe deu o “eu”, Deus. Retomar as próprias aspirações eternas, e retificar a conduta de acordo com elas é justamente a vantagem e a graça do cristão.
Kierkegaard apresenta ainda as personificações do desespero, que podem ser identificadas abstratamente quando se prescruta os diversos fatores desta síntese que é o “eu”, formado de finito e infinito. Uma relação que apesar de derivada, relaciona-se consigo própria, o que é justamente a liberdade.
Tal liberdade apresentada também em perspectiva “dialética das duas categoria do possível e do necessário, [3] é justamente a chave de saída do desespero, pois “quanto mais consciência houver, tanto mais eu haverá; pois que, quanto mais ela cresce, mais cresce a vontade, e haverá tanto mais eu quanto maior for a vontade[4]. Aqui podemos entender também porque Kierkegaard é considerado também um autor espiritual em sentido religioso, pois que conclusão podemos extrair dessa reflexão?
Em particular eu concluo, que a partir da perspectiva do autor, podemos afirmar que os santos, através da vida ascética, oração e penitência buscam sempre mais conhecer e praticar a vontade de Deus e, na medida em que avançam nas via espiritual o seu “eu”  vai se aniquilando e Deus vai crescendo nele, de modo que quando o “eu” morre, propriamente “Não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim”. **** Encontrar a passagem bíblica.
A partir daí apresenta ainda tais personificações do desespero: a) desespero como infinidade ou a carência de finito; b) o desespero no finito, ou a carência de infinito.
Ao falar do desespero visto sob a dupla categoria do possível e da necessidade, Kierkegaard distingue o desespero do possível ou a carência de necessidade, que no fundo o que lhe falta, é a força de obedecer, de se submeter à necessidade inclusa no nosso eu, do que se pode chamar as nossas fronteiras interiores” [5] e o desespero na necessidade, ou a carência de possível, que faz com que o cristão apoie-se sobretudo não em si mesmo, mas em Deus que tudo pode e sempre pode, pois “no possível tem o crente o eterno e seguro antídoto do desespero; porque Deus pode a todo instante. É essa a saúde da fé, que resolve as contradições.”[6]



[1] KIERKEGAARD, Soren. O Desespero Humano (Doença até a morte). Col. Os Pensadores. Ed. Abril Cultural. Rio de Janeiro. 1979. Pág. 331.
[2] Ibidem, pág 332.
[3] Cfr. Ibidem, pág. 336.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem, pág. 344.
[6] Ibidem, pág. 347.




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